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Federação sobrevive a bolsonarices e esquisitices

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/02/2020 23h42

O encontro do governador petista do Ceará, Camilo Santana, com três ministros de Jair BolsonaroSergio Moro, da Justiça; Fernando Azevedo e Silva, da Defesa; e André Mendonça, da Advocacia-Geral da União— representa um alento. Mostra que a superpolarização política ainda não envenenou por completo os princípios federativos que regem a administração pública brasileira. Enquanto Jair Bolsonaro e os rivais se atiçam mutuamente, as engrenagens do Estado se movem para proteger os interesses dos brasileiros que sofrem com o motim da polícia cearense.

A colaboração entre Fortaleza e Brasília, que permitiu o envio de tropas federais para o Ceará, funciona à margem de uma politicagem que levou Carlos Bolsonaro e Ciro Gomes a travar nas redes sociais uma briga de pátio de colégio. O filho Zero Dois do presidente se referiu à família Ferreira Gomes, aliada do PT no Ceará, como "pessoal do nariz nervoso", insinuando que Ciro e Cid Gomes, o senador da retroescavadeira, aspiram algo mais além de ar puro. Em resposta, Ciro se referiu aos membros do clã Bolsonaro como "canalhas", "milicianos" e "peculatários corruptos."

O ruim desse tipo de política que se confunde com briga de rua é o pessoal que passa não distinguir quem é quem. Em meio a uma troca de ofensas em que o filho do presidente e um candidato à Presidência se enxergam mutuamente como gambás, só há uma certeza: até o vitorioso, se houver, sairá da briga fedendo.

Para os brasileiros do Ceará, é reconfortante notar que as autoridades encarregadas de lidar com a crise ainda são capazes de colocar o interesse coletivo acima da beligerância política. A essa altura, pior do que conviver com caos na segurança pública seria constatar a eventual conversão da federação numa alegoria a serviço de bolsonarices e de outras esquisitices de trogloditas que fazem política com métodos paleolíticos.

Josias de Souza