PUBLICIDADE
Topo

Coronavírus é um desses males que vêm para pior

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/02/2020 00h57

A Quarta-feira de Cinzas é a porta de entrada da Quaresma, tempo de penitência e oração. Na simbologia cristã, as cinzas bentas aplicadas sobre a testa servem para lembrar da finitude humana. Neste ano da graça de 2020, o cheiro das cinzas chegou mais cedo. O Brasil ainda sacudia no ritmo do samba e Jair Bolsonaro aproveitava o feriadão do Carnaval para realizar testes de popularidade nas ruas do Guarujá quando a economia mundial registrou um solavanco que inspira reflexão.

Aos poucos, vai se desfazendo a ilusão de que o coronavírus faria um estrago pequeno fora dos limites da China. Se ficasse restrita ao território chinês, a encrenca já teria impacto sobre o desempenho da economia global. Mas começam a surgir indicações de que o Covid-19, como o fantasma foi batizado, é um desses males que vêm para pior.

Na segunda-feira carnavalesca, registraram-se quedas repentinas nas cotações de produtos exportados pelo Brasil, como minério de ferro. Caíram também as ações de empresas ao redor do mundo, inclusive logomarcas brasileiras, como Vale e Petrobras. A volatilidade se manteve nesta terça, sobretudo na Europa. Além de assombrar a Itália, que teve de isolar algumas cidades, o novo vírus deu as caras em outras praças —Suíça e Espanha, por exemplo.

É nesse ambiente de incertezas que a Bolsa de Valores brasileira retornará do feriadão. Ainda não é possível dimensionar o tamanho do estrago que o vírus produzirá na economia mundial nos próximos meses. Mas já se pode constatar que o Brasil subestima a ameaça ao negligenciar as reformas pós-Previdência. Bolsonaro mede seu prestígio no Guarujá sem se dar conta de que não há popularidade sem prosperidade.

O Banco Central já estima que o PIB de 2019 pode ter ficado abaixo de 1%. O mercado começa a rebaixar para menos de 2% suas previsões de crescimento para 2020. Resta ao capitão um consolo. Na oposição, a única novidade é que Lula trocou a condição de presidiário pela de turista. Depois e visitar o papa, em Roma, o pajé do PT informou à Justiça que ficará fora do Brasil de 29 de fevereiro a 12 de março. Vai à França, Suíça e Alemanha. No momento, o maior opositor de Bolsonaro chama-se Covid-19.

Josias de Souza