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Não há parlamentarismo branco, mas governo pálido

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/02/2020 05h23

Jair Bolsonaro afeiçoou-se à marcha da insensatez. Sempre que lhe apertam os calos, atiça as ruas. Fez isso, por exemplo, ao trombetear no ano passado o texto apócrifo que dizia que o Brasil é "ingovernável fora dos conchavos". Ou ao difundir o vídeo em que desempenhava o papel de um leão cercado pelas hienas do STF, da imprensa e dos partidos. Requenta novamente o truque agora, ao distribuir via WhatsApp o vídeo acima.

Na peça, adornada com imagens da facada e cenas hospitalares, súditos de Bolsonaro convocam o asfalto para apoiá-lo em 15 de março, emparedando o Congresso. Mas há uma diferença: o capitão agora carrega atrás de si o rastro de 14 meses de gestão. Um eleitor de boa-fé pode acreditar que o Congresso é parte do problema do país. Mas terá dificuldade para culpar o Legislativo que reformou a Previdência pela sedação da economia e pelo desânimo do Posto Ipiranga.

Os congressistas também não têm nada a ver com: o desinteresse do presidente pela agenda de reformas, os erros na correção do Enem, o flagelo da fila do INSS, o apodrecimento da ala investigada da Esplanada, a inépcia do pedaço ideológico do ministério, a biografia rachadinha do primogênito Flávio Bolsonaro e a companhia tóxica do cadáver do miliciano Adriano da Nóbrega.

Na campanha de 2018, havia três grandes problemas sobre a mesa: a ruína fiscal, a estagnação econômica e uma corrupção endêmica. No alvorecer de 2020, a promessa de Paulo Guedes de zerar o déficit no primeiro ano era de vidro e se quebrou. O crescimento pujante, que os otimistas projetavam em 3%, virou um PIB à Michel Temer, rodando na casa de 1%. A bandeira da Lava Jato desapareceu.

Para aprumar o governo, convertendo mediocridade em pujança, Bolsonaro precisaria exibir foco, serenidade e diálogo. Ele fornece tuítes, crises e caneladas. Desentende-se com a banda técnica de sua equipe, briga com a imprensa e avaliza a tese do general-ministro Augusto Heleno segundo a qual o Orçamento foi abocanhado por chantagistas do Congresso.

O capitão e seu general de estimação enxergam uma trama do Congresso para implantar um parlamentarismo branco. Bolsonaro e Heleno não se dão conta de que os congressistas apenas ocupam o espaço aberto por um governo pálido.

Josias de Souza