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No governo do capitão, economista vira articulador

Alan Marques/Folhapress
Imagem: Alan Marques/Folhapress
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

28/02/2020 18h59

Na política, os acontecimentos mudam tão rapidamente que aqueles que dizem que alguma coisa não pode ser feita são geralmente surpreendidos por alguém fazendo a coisa.

Enquanto o general palaciano Augusto Heleno se diverte chamando o Legislativo de chantagista e Jair Bolsonaro brinca de atiçar as ruas, o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, molha o paletó num esforço para chegar a um entendimento sobre o chamado orçamento impositivo.

Nas palavras de Mansueto, "o Orçamento impositivo pode levar a um planejamento muito melhor. Vai ter adaptações, mas não é o fim do mundo."

Ele discute mecanismos que permitam ao governo realocar recursos, transferindo verbas entre os ministérios. É no mínimo inusitado que um técnico da equipe econômica tenha que falar o idioma da conciliação.

A controvérsia já é conhecida. O Congresso forçou a porta do Tesouro para controlar R$ 30 bilhões do Orçamento de 2020. Bolsonaro vetou. Fez isso a despeito de seu filho, Eduardo Bolsonaro, ter votado a favor da novidade, lembrando em discurso que o pai-presidente também apoiava. Quando os parlamentares se preparavam para derrubar o veto presidencial, abriu-se uma negociação. Com o aval dos ministros Paulo Guedes (Economia). E Luiz Eduardo Ramos (coordenador político) esboçou-se um acerto para que o Executivo distribuísse livremente entre os ministérios metade da verba, coisa de R$ 15 bilhões.

Davi Alcolumbre, presidente do Congresso, marcou para a próxima terça-feira a votação dos vetos de Bolsonaro. O bom senso recomenda negociação. E o lugar adequado para a busca do consenso, com todas os seus vícios, é o Parlamento. Quando não há Parlamento para absorver os conflitos, há duas hipóteses. A primeira é a ditadura, que resolve suas divergências nas câmaras de tortura. A segunda é a guerra civil, modelo em que os oponentes recorrem ao trucidamento mútuo. A oportunidade de demonstrar maturidade bate à porta de Bolsonaro e dos congressistas. Mansueto Almeida, o técnico, demonstra que é melhor abrir a porta do que ficar reclamando do barulho.

Josias de Souza