PUBLICIDADE
Topo

Coronavírus receita quarentena à língua presidencial

Reprodução
Imagem: Reprodução
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

12/03/2020 15h05

Ao infectar o secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, o coronavírus colocou Jair Bolsonaro e todos os que viajaram com ele para os Estados Unidos sob monitoramento médico. O fato inspira preces e reforça um diagnóstico.

Reza-se para que Wajngarten melhore e para que os demais estejam livres do contágio. Suplica-se para que Donald Trump e seu vice Mike Pence, que apertaram a mão do chefe da Secom, não tenham sido infectados. Confirma-se, de resto, que a língua de Bolsonaro, acometida de imprudência crônica, precisa de quarentena.

A língua do presidente, como se sabe, possui vida própria. Fala aos borbotões. Num encontro com empresários americanos, disse que o coronavírus "não é isso tudo que a grande mídia propaga." Chamou de "fantasia" a doença que virou pandemia e dobrou os joelhos da economia mundial.

Com esses comentários, a língua empurrou o presidente para algum lugar situado entre a irresponsabilidade e a alienação. Em qualquer das duas hipóteses, Bolsonaro estará longe da Presidência séria e prudente que os mais de 57 milhões de brasileiros que votaram nele esperavam.

Sem que a língua suspeitasse, Bolsonaro perambulou com o vírus a tiracolo, tomou café com o vírus em saleta reservada, levou o vírus ao jantar oferecido por Trump... Os médicos do Planalto já submeteram o presidente ao teste do coronavírus. O resultado do exame sai nesta sexta-feira. Seja qual for, a língua precisa ser colocada imediatamente em quarentena.

Ainda não se descobriu uma vacina contra a patologia da verborragia presidencial. Mas convém monitorar a língua. Mal comparando, ela vem atuando como uma espécie de Id que mexe diariamente no Ego de Bolsonaro com a varinha da irresponsabilidade psicanalítica, trazendo à tona o lodo que deveria ficar no fundo da inconsciência.

Josias de Souza