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Coronavírus confina Bolsonaro num país alternativo

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

17/03/2020 19h49

É triste constatar, mas no momento dois países num mesmo Brasil. Há o país real e o país alternativo, que existe apenas no discurso de Jair Bolsonaro. No Brasil da retórica presidencial, a pandemia do coronavírus é uma fantasia que, amplificada pela grande mídia, virou uma histeria. No Brasil real, instalou-se na Casa Civil da Presidência, com enorme atraso, um gabinete de crise para lidar com o flagelo do coronavírus.

No Brasil de Bolsonaro, governadores mal-intencionados adotam restrições à circulação das pessoas para prejudicar deliberadamente uma economia que ia muito bem a despeito do pibinho de 2019 e da paralisia da agenda de reformas. No país do gabinete de crise, o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, vive a síndrome do que está por vir. Ele repassou R$ 432 milhões aos Estados, para ajudar na tarefa de preparar o sistema hospitalar para o pico do contágio do coronavírus, que virá em breve.

No país alternativo, Bolsonaro afronta as recomendações sanitárias do seu governo. Depois de confraternizar com apoiadores numa manifestação que não deveria ter ocorrido, o presidente programa dois dias de festa para celebrar o seu aniversário e o da primeira-dama Michelle, no próximo final de semana. No Brasil real, lamenta-se a primeira morte de um brasileiro infectado pelo coronavírus, em São Paulo.

Nesta terça-feira, os dois países se encontraram num briefing do porta-voz Presidência, o general Otávio do Rego Barros. Ele reuniu a imprensa para comunicar a criação do gabinete de crise.

Um repórter esboçou a intenção de questionar sobre o comportamento de Bolsonaro. O general atalhou a pergunta: "Sobre isso não vou responder."

Ignorar costuma ser mesmo a melhor vacina contra a ignorância. É uma pena que o Brasil não possa fazer como o porta-voz. É impossível ignorar a ignorância de um presidente que ignora recomendações do seu próprio governo.

Josias de Souza