PUBLICIDADE
Topo

Cúpula da República está cercada pelo coronavírus

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/03/2020 21h35

"Isso é uma guerra", disse o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, na entrevista conjunta concedida nesta quarta-feira por dez autoridades, entre elas Jair Bolsonaro. "O que está acontecendo é uma guerra", ele reiterou. "O inimigo é invisível, feroz, dedicado."

As máscaras na face indicavam que, embora invisível, o inimigo dominava a cena. O coronavírus cercou a cúpula da República. Os entrevistados terão de se submeter a novos exames. Mantiveram contatos com dois novos infectados: os ministros Bento Albuquerque (Minas e Energia) e Augusto Heleno (GSI).

No total, o vírus já ganhou a corrente sanguínea de 17 integrantes da comitiva de Bolsonaro na recente viagem aos Estados Unidos. Contaminou também o organismo do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Por mal dos pecados, Alcolumbre recebeu a má notícia três dias depois de ter participado de reunião com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia; e do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli; além de outros seis magistrados da Corte Suprema.

Presente à entrevista conjunta liderada por Bolsonaro, o ministro Henrique Mandetta (Saúde) explicou que as máscaras destinavam-se a proteger a "cadeia de comando" da tropa que se dedica a combater a pandemia. Pode ser tarde demais.

O próprio Mandetta teve contato com os novos infectados. Despachou na véspera, por exemplo, com Augusto Heleno. E participou da reunião em que o vírus, já entrincheirado dentro de Alcolumbre, encostou em Maia e sete togas.

Quer dizer: a essa altura, ninguém está livre de contágio no topo da hierarquia dos Três Poderes. O próprio Bolsonaro, isento de infecção, terá de repetir um exame a que já se submeteu um par de vezes.

Amigo e conselheiro, o general Heleno esteve com o presidente pelo menos três vezes depois do exame que deu positivo. O general não usava máscara, pois também imaginava estar livre de contágio. Seu primeiro teste anotara resultado negativo.

Ainda que já estivesse incorporada ao figurino do Poder, a máscara teria sido artefato de pouca serventia. O tira-e-põe de máscaras exibido na coreografia desta quarta-feira revela que o sistema respiratório dos poderosos continua indefeso. O país também.

Por ora, o coronavírus —esse "inimigo é invisível, feroz e dedicado"— vai prevalecendo sobre autoridades que utilizam uma grande visibilidade para expor um cintilante improviso.

Josias de Souza