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Clã Bolsonaro prova que a genialidade tem limites

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/03/2020 23h36

O deputado Eduardo Bolsonaro disputa com os irmãos Carlos e Flávio uma espécie de corrida para mostrar ao pai Jair quem é o filho mais genial. No seu penúltimo esforço, Eduardo avaliou que o Brasil tem poucos problemas. E achou que seria uma boa ideia adicionar à pandemia do coronavírus e ao risco de recessão econômica uma briga diplomática com a China, o maior parceiro comercial do Brasil.

O filho do presidente culpou a China pela pandemia. Até onde foi possível apurar, esse vírus surgiu na cidade chinesa de Wuhan. No final de dezembro do ano passado, o médico que tentou alertar sobre a gravidade da descoberta foi advertido pelas autoridades locais. Esse médico morreu em fevereiro, contaminado pelo coronavírus. A ditadura chinesa abriu uma investigação, considerou inapropriado o comportamento das autoridades de Wuhan e diz que serão punidos os responsáveis. Sabe-se também que a China agiu com rigor para deter o avanço do coronavírus.

No momento, o ministro Henrique Mandetta, da Saúde, solta fogos porque a China se oferece para enviar ao Brasil equipamentos que se tornaram escassos no resto do mundo. Coisas como respiradores artificiais e máscaras. A ministra Tereza Cristina, da Agricultura, celebra a reabertura de negociações com a China para a venda de excedentes de produtos agropecuários do Brasil.

Foi nesse ambiente que Eduardo Bolsonaro, ex-futuro-quase-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, chanceler informal do governo, decidiu comprar briga com a China. Numa reação incomum, o embaixador chinês no Brasil disse que o filho de Bolsonaro foi infectado por um "vírus mental". Exige um pedido de desculpas. O Itamaraty toma as dores do filho do presidente.

Difícil obter um pedido sincero de perdão, porque o patriarca do clã Bolsonaro está convencido de que o coronavírus é um plano da China para subjugar a economia mundial. Ainda não se sabe quem é mais genial, se o Zero Um, o Zero Dois, o Zero Três ou o pai. Mas vai ficando claro que a diferença entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites.

Josias de Souza