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Mandetta ajusta discurso à pregação de Bolsonaro

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/03/2020 06h21

Adepto da teoria da palmeira única, Jair Bolsonaro não convive pacificamente com ministros que brotam no gramado do governo como autoridades capazes de fazer sombra ao chefe. Emitiu sinais de incômodo com a desenvoltura de Henrique Mandetta na administração da crise do coronavírus. O ministro da Saúde cuidou de ajustar o seu discurso às obsessões e conveniências do chefe.

Médico de formação, Mandetta vinha colecionando elogios por encostar na ciência e na boa técnica a estratégia do seu ministério para enfrentar o tsunami sanitário. Nesta quarta-feira, na entrevista conjunta comandada por Bolsonaro, o ministro adicionou à sua pregação médica os "impactos econômicos".

"É muito fácil falar 'fecha tudo', não deixe ninguém sair, quando as pessoas tem ainda muita informalidade, pouco recurso, precisa ser criado plano de alternativa econômica", afirmou Mandetta. "Eu preciso muito da equipe do ministro Paulo Guedes."

Na véspera, Bolsonaro lamentara que o esvaziamento de eventos como jogos de futebol prejudique os ambulantes que faturam ao redor dos estádios. Sem citar nomes, o presidente criticara governadores por adotarem providências de recolhimento social que potencializam a anestesia da economia.

Ecoando o chefe, Mandetta criticou "esses fechamentos de estrada que alguns governadores insinuam." Absteve-se de citar nomes. "Não adianta fechar tudo e faltar o frango que está pronto para chegar", disse o ministro. "Você segura uma coisa e desabastece a outra. Se eu não chegar com o cloro, para por na água de todo Brasil, que é servida para 200 milhões de brasileiros, a gente sai do vírus e cai em problema da qualidade da água."

Na segunda-feira, um dia depois de Bolsonaro ter participado de manifestação anti-Congresso e anti-STF, Mandetta reuniu-se com os chefes do Legislativo e do Judiciário. O presidente deplorou o noticiário sobre esse encontro. Abespinhou-se especialmente com as reportagens que associavam sua ausência a um plano urdido pelos presidentes das Casas legislativas e do Supremo para desgastá-lo.

Sem que ninguém perguntasse, Mandetta apressou-se em explicar durante a entrevista o porquê do encontro. Foi "para pedir que eles tragam sugestões de ritos sumários" de compras, flexibilizando a lei das licitações. Nessa versão, a legislação seria um estorvo incompatível com a necessidade de adquirir rapidamente materiais e equipamentos para combater o coronavírus.

O ministro teve o cuidado de realçar que Bolsonaro receberia à noite, no Planalto, os chefes dos outros poderes. O encontro aconteceu. Mas os presidentes do Senado e da Câmara não deram as caras.

O senador Davi Alcolumbre, infectado pelo coronavírus, mandou dizer que estava de molho em casa. Rodrigo Maia presidia sessão noturna na Câmara. Antes, Maia avisou que não iria ao Planalto apenas para tirar uma foto ao lado de Bolsonaro. Escaldato, condicionou o encontro à existência de uma pauta previamente definida.

Após cruzar os últimos dias desaconselhando aglomerações e contatos interpessoais, Mandetta flexibilizou sua cartilha para tentar atenuar as pauladas que Bolsonaro vem recebendo por ter participado da manifestação pró-governo do último domingo.

O ministro lembrou que, naquele dia, os devotos de Bolsonaro não foram os únicos a levar os sapatos ao meio-fio. Como se isso liberasse o presidente da República de dar o exemplo. "Naquele domingo, a gente viu as praias do Rio lotadas, o Leblon lotado, São Paulo lotado..."

De repente, Mandetta passou a achar natural que o brasileiro demore a assimilar as recomendações da pasta que dirige. "Todo mundo começa a enxergar coletivamente. É típico de epidemias que as coisas se deem assim. É típico que, na sociedade como um todo, a gente vá gradativamente vendo a sinalização dos casos" de confirmação de contágio. "Não existe uma receita de bolo. O Brasil é um continente, não estamos falando de um país pequenininho."

De resto, o ministro passou a encarar com naturalidade o fato de Bolsonaro ter confraternizado com apoiadores na frente do Planalto, a despeito de estar sob monitoramento médico. "O presidente testou negativo", disse Mandetta, ecoando o chefe.

O ministro deu de ombros para o fato de que Bolsonaro, embora dispusesse de exame atestando que não fora contaminado pelo coronavírus, ainda aguardava o resultado de uma contraprova.

Mandetta equiparou o monitoramento do presidente ao de um brasileiro qualquer: "O que a gente diria se fosse um cidadão comum? Caso você tenha sinais, sintomas, procure uma unidade de saúde."

Comparado àquele ministro tecnicamente cioso das entrevistas anteriores, o Mandetta da coletiva conjunta coordenada por Bolsonaro soou em determinados momentos como uma espécie de sub-Mandetta.

Josias de Souza