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Panelas devolvem o 'mito' à sua condição humana

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/03/2020 02h55

Jair Bolsonaro costuma dizer que foi salvo da facada "por milagre". Grudou no seu governo um selo: "Missão de Deus." Refere-se ao "povo" como se fosse intérprete de sua vontade. O presidente parece dar de barato que todos são obrigados a aceitar as presunções que ele cultiva a seu próprio respeito.

Em matéria de coronavírus, isso inclui concordar que a missão divina de Bolsonaro lhe confere a prerrogativa de subverter a realidade, reduzindo uma pandemia que assombra o mundo à condição de marolinha sanitária. Coisa "superdimensionada" pela "grande mídia", para produzir "pânico" e "histeria."

Pelo segundo dia consecutivo, as panelas foram às janelas para recordar a Bolsonaro que supostos mitos também estão sujeitos à condição humana. Na terça-feira, o panelaço soara uma vez. Nesta quarta, ecoou três vezes em diferentes capitais, Ouviram-se também tímidas panelas governistas.

Bolsonaro escora seu governo num slogan —"Brasil cima de tudo, Deus acima de todos"— e num versículo multiuso que extraiu do Evangelho de João —"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará."

Deus, como se sabe, está em toda parte. Mas Ele parece ter terceirizado ao Tinhoso a modelagem do comportamento de Bolsonaro diante da crise do coronavírus. Infectado pelo "soberbavírus", o capitão ainda não enxergou a única verdade capaz de libertá-lo.

Eis a verdade redentora: 147 milhões de eleitores estavam aptos a votar na sucessão de 2018. Bolsonaro amealhou 57,7 milhões de votos. Ou seja, chegou ao Planalto escorado na vontade de 39% do eleitorado. Isso não lhe confere um salvo-conduto para dizer e fazer o que lhe vier à telha.

Para complicar, parte do eleitorado que optou por Bolsonaro escolheu um vencedor, não um presidente. Por quê? Muita gente votou no capitão para impedir que o triunfo de Fernando Haddad devolvesse o poder ao PT. Prevaleceu a exclusão, não a preferência.

Numa conjuntura assim, marcada pela polarização extrema, caberia ao vitorioso a generosidade da pacificação. Bolsonaro preferiu acentuar as diferenças. Se produzisse um crescimento econômico exuberante, ampliaria sua base eleitoral. Com o pibinho de 1,1% no primeiro ano e o fantasma da recessão a rondar 2020, vive uma fase de encolhimento.

As panelas representam uma amostra do pedaço antipetista da classe média que foge do voluntarismo cristão de Bolsonaro à espera de uma alternativa melhor ao messianismo corrupto representado por Lula e o seu PT. Nesse ambiente, Lula tornou-se o rival de estimação de Bolsonaro. E vice-versa.

Josias de Souza