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Coronavírus deixou software do governo obsoleto

ADRIANO MACHADO
Imagem: ADRIANO MACHADO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/03/2020 16h36

O coronavírus tornou obsoleto o software que o governo tinha colocado para rodar em 1º de janeiro de 2019, na posse de Jair Bolsonaro. Obrigado a abandonar momentaneamente o triunfalismo das reformas liberais, o governo passou a operar no modo de negação. O processador de Jair Bolsonaro e de sua equipe econômica ficou sobrecarregado. A edição de uma medida provisória autorizando empresas a suspender contratos de trabalho por quatro meses impondo aos trabalhadores o salário zero foi uma evidência de que a placa do governo ferveu.

O absurdo durou menos de 24 horas. O governo foi compelido a revogar o trecho da medida provisória que refrescava a folha das empresas no auge da crise, reservando para os trabalhadores o confinamento com a geladeira vazia. A equipe de Paulo Guedes recuou não por convicção, mas por pressão. Bolsonaro chegou a defender a medida. Mas a cúpula do Congresso informou que, do jeito que estava, a medida provisória não ficaria. Cogitava-se inclusive devolver a MP para o Planalto, o que potencializaria o vexame.

O curioso é que o governo queria entregar aos empresários mais do que eles tinham pedido. Solicitava-se a possibilidade de reduzir jornada de trabalho com a correspondente redução dos contracheques. Em caso de suspensão dos contratos, entidades como a Confederação Nacional da Indústria pleiteavam a autorização para reduzir os salários à metade. O governo compensaria uma parte das perdas dos trabalhadores com renda de até dois salários mínimos, liberando verbas do seguro desemprego e do FGTS.

Com boa vontade, pode-se admitir que o governo errou. Com má vontade, pode-se supor que a equipe de Paulo Guedes não está programada para oferecer exibições de sensibilidade social. Nas duas hipóteses, fica evidente que há um descompasso entre o Ministério da Saúde e a pasta da Economia. Num setor, o planejamento. Noutro, medidas elaboradas em cima do joelho por uma equipe que roda um software vencido. Ou ajusta o programa rapidamente ou 2020 pode ser um ano ainda mais feroz.

Josias de Souza