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Na crise do coronavírus, Brasília é parte do problema

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/03/2020 20h22

Na avaliação de Jair Bolsonaro, o maior problema do país é ignorar a evidência de que é hora de parar o isolamento social. Os médicos, a Organização Mundial da Saúde e a experiência dos outros países indicam o contrário. Na fase atual da pandemia do coronavírus, o isolamento ainda é necessário.

Verifica-se, então, que o principal problema do Brasil no momento é que o governo Bolsonaro, preocupado em parar prematuramente o que alguns estados fizeram, ainda não sabe por onde começar a execução das suas propostas para lidar com os efeitos econômicos da pandemia.

Se o Planalto não consegue se posicionar em cena como parte da solução, acaba virando parte do problema. A equipe econômica divulgou um lote de providências para atenuar o drama financeiro de pessoas e empresas em situação mais vulnerável. Mas por enquanto tudo ficou no gogó.

A medida provisória que permite a empresas suspender contratos ou reduzir jornadas de trabalho foi abortada depois de nascer, porque deixava o trabalhador sem salário. Incluiu-se o seguro desemprego na jogada. Mas agora informa-se que a suspensão dos contratos valerá não por quatro meses, mas por dois meses. É muito improviso.

Continuam no gogó: a liberação de R$ 200 por mês para trabalhadores informais e autônomos de baixa renda. A Câmara decidiu elevar esse valor para R$ 500. Mas já deveria ter chegado ao bolso das pessoas. Há também o adiantamento de R$ 200 para quem está na interminável fila do auxílio-doença.

Quer dizer: o sujeito recolheu a sua contribuição ao INSS e, na hora que ficou doente, o governo o colocou numa fila. Como o coronavírus chegou antes que a burocracia conseguisse eliminar a fila, o governo oferece o adiantamento de R$ 200. E essa estupenda generosidade continua na fase da saliva.

Bolsonaro tornou-se um presidente especialista em apontar os defeitos alheios. O presidente ainda não notou, mas seu governo seria outro se utilizasse o tempo e a energia que desperdiça falando dos problemas para enfrentar os seus próprios problemas.

- Atualização feita às 22h03 desta quinta-feira (26): A Câmara aprovou em sessão noturna o "vale corona". Destina R$ 600 reais por três meses a trabalhadores informais e autônomos de baixa renda. A tramitação da proposta denuncia o improviso. O governo sugerira que o vale fosse de R$ 200 por mês. Os deputados decidiram aprovar R$ 500. O Ministério da Economia regateou para R$ 300. Na última hora, com a sessão em andamento e a derrota prestes a acontecer, Bolsonaro mandou dizer que topava R$ 600, o triplo da oferta inicial do governo. O texto vai ao Senado. Estima-se que o socorro beneficiará 24 milhões de trabalhadores sem carteira assinada.

Josias de Souza