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Dubiedade do governo instaura manicômiocracia

Jair Bolsonaro - Foto: reprodução
Imagem: Jair Bolsonaro - Foto: reprodução
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/03/2020 19h03

No instante em que Jair Bolsonaro investe R$ 4,9 milhões do contribuinte numa campanha publicitária anticonfinamento, o governo anuncia medidas que socorrem empresas e trabalhadores, favorecendo a manutenção do isolamento social. O governo vai sendo transformado rapidamente numa espécie de centro terapêutico para tratar o presidente da República de sua esquizofrenia crômica.

Em nova evidência de que o comportamento presidencial oscila entre o maníaco e o depressivo, Bolsonaro participou da abertura da cerimônia em que as novas medidas foram anunciadas. São insuficientes, mas vão na direção correta. A principal novidade foi a destinação de R$ 40 bilhões para financiar a folha salarial de pequenas e médias empresas.

Estima-se que o socorro alcançará 1,4 milhão de empresas e seus cerca de 12 milhões de trabalhadores. Em tese, patrões e empregados realizarão com menos insegurança a travessia do isolamento, que Bolsonaro abomina, embora se disponha a financiar. Adotou-se uma engenharia financeira criativa.

O Tesouro Nacional, entra com 85% da verba (R$ 34 bilhões). Os outros 15% virão dos bancos privados. O dinheiro será emprestado em condições muito favoráveis: Três anos para pagar. A primeira prestação vence em seis meses. Juros de 3,75% ao ano. Isso é igual à taxa Selic. Preço de custo.

Liberado o empréstimo, o dinheiro vai direto para a conta do trabalhador, sem fazer escala na caixa registradora da empresa. Que terá de se comprometer em contrato a manter seus funcionários por pelo menos dois meses.

Na prática essa linha de crédito sinaliza que a ficha da equipe econômica vai, aos poucos, caindo. Nada mais antiliberal do que uma linha de crédito a empresas privadas em que o Tesouro responde por 85% do risco em caso de inadimplência.

A crise exige essa mudança. Foi para isso que Bolsonaro propôs —e o Congresso aprovou— a decretação do estado de emergência. O que não se compreende é a duplicidade de comportamento do presidente da República.

O ministro Paulo Guedes (Economia) tenta, sem muito sucesso, explicar o que vai na cabeça de Bolsonaro: "Ele [Bolsonaro] não está diminuindo o problema [da 'gripezinha']. Ele está nos alertando que precisamos impedir a desorganização da economia, impedir uma crise de desabastecimento no Brasil."

O país não merecia semelhante castigo. Depois de suportar a esquizogovernança de Dilma Rousseff, de encarar a cleptoanálise grupal de Michel Temer e de descer ao manicômio prisional em que Lula se fingiu de preso político antes que o STF o libertasse, o país terá de aturar mais uma presidência de miolo mole.

Num instante em que deveria unir o país em torno do vírus, o inimigo comum, Bolsonaro dedica-se a tocar um governo da guerra, pela guerra e para a guerra. Briga até consigo mesmo. Não se sabe quanto tempo ainda vai durar a loucura. Mas Bolsonaro, tomado pela insensatez, parece decidido a provar que não está em condições de receber alta.

Josias de Souza