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Bolsonaro torna Mandetta ministro constrangedor

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

30/03/2020 19h42

Jair Bolsonaro transformou seu ministro da Saúde num personagem constrangedor. O constrangimento fica à mostra cada vez que Henrique Mandetta fala com a imprensa. O embaraço é maior pelas perguntas que o ministro tem que ouvir do que pelas respostas que ele não consegue oferecer. Num instante em que o governo deveria se concentrar na guerra contra o coronavírus, Mandetta teve que ouvir indagações sobre seus atritos com o presidente e sobre as dúvidas quanto à sua permanência no cargo.

As respostas do ministro, evasivas, têm a consistência de um pote de gelatina. As dúvidas continuam boiando na atmosfera. Isso acontece porque o ministro da Saúde diz uma coisa e o presidente da República faz o contrário. Mandetta gerencia adequadamente o combate ao coronavírus. Insinua que fica no cargo enquanto o presidente quiser. Resta saber se Bolsonaro, tecnicamente deslocado, vai conseguir gerenciar a si mesmo. Se demitir o ministro em meio à pandemia, Bolsonaro vai potencializar o seu estado de isolamento político.

Sabe-se que Bolsonaro não deseja o isolamento social preconizado por seu ministro. Resta agora descobrir o que sugere Bolsonaro para combater o coronavírus. Do contrário, prevalecerá a impressão de que o principal problema do Brasil no enfrentamento da doença é o fato de que o presidente imagina que o problema não é dele.

Quais são os parâmetros científicos em que se escora o presidente para sugerir o fim do isolamento? O presidente vai providenciar leitos de UTI se o sistema hospitalar entrar em colapso? A administração do SUS é tripartite. Envolve União, Estados e municípios. Levantando-se o isolamento, Bolsonaro vai federalizar o SUS, assumindo responsabilidade pelos cadáveres que resultarão da elevação da taxa de contágio do vírus?

No domingo, após afrontar todas as orientações técnicas num tour pela periferia de Brasília, o presidente declarou: "O vírus tá aí, vamos ter de enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, pô, não como moleque." Bolsonaro precisa informar por que considera seu ministro da Saúde, a cúpula da Organização Mundial da Saúde, cientistas e chefes de Estado do mundo inteiro como moleques. Precisa definir também o que entende por homem, sobretudo um homem que tem a responsabilidade de dirigir o país.

Josias de Souza