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Bolsonaro cria meia verdade e usa parte mentirosa

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

31/03/2020 19h26

Há dois Bolsonaros na praça. O presidente acha que é uma coisa. Mas as suas atitudes indicam que ele virou outra coisa. O primeiro Bolsonaro está preocupado com o estômago dos brasileiros pobres, abomina as notícias falsas e cultua um versículo do Evangelho de João: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". O outro Bolsonaro é muito parecido com o primeiro, só que mente um pouco.

Esse Bolsonaro que mente um pouco revelou-se capaz de tudo para demonstrar que seria genuína a preocupação do outro Bolsonaro, o cristão, com os efeitos da política de isolamento social sobre a renda de trabalhadores informais. Chegou ao ponto de adulterar o sentido de uma manifestação do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom.

O que disse o comandante da OMS? Ele reafirmou que o isolamento social é a melhor estratégia para atenuar a proliferação do coronavírus. Manifestou sua preocupação com pessoas pobres que precisam trabalhar para obter alimentos diariamente. E atribui aos governos a responsabilidade de implementar políticas públicas capazes de assegurar o bem-estar das pessoas vulneráveis na fase de emergência sanitária.

O que fez Bolsonaro? Trombeteou apenas o pedaço da fala que trata da fome dos pobres privados do trabalho, omitindo o trecho que trata da responsabilidade dos governos em socorrê-los. E insinuou que o diretor-geral da OMS aderiu à tese segundo a qual é preciso relaxar o isolamento social. Tedros Adhanom, como seria previsível, desmentiu Bolsonaro. E o presidente brasileiro, ou a sua versão mentirosa, leva o Brasil a passar mais um vexame internacional.

O perigo da meia verdade é o sujeito dizer exatamente a metade que é mentira. Ficou entendido que o presidente da República, em suas duas versões, está mais interessado na batalha da informação do que na guerra contra o vírus ou na proteção dos pobres, que, no Brasil, ainda não viram a cor do dinheiro federal. Não é que os ambulantes tenham que voltar ao trabalho, o governo é que precisa fazer o trabalho dele.

Josias de Souza