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Tolerância do brasileiro é fiapo que segura Bolsonaro

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Imagem: AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

05/04/2020 05h19

O Datafolha revela que Jair Bolsonaro vive uma situação paradoxal. Soube-se na sexta-feira que apenas 33% dos brasileiros aprovam sua atuação no combate ao coronavírus. Para 51%, ele mais atrapalha do que ajuda. Chegam ao noticiário neste domingo outros dados. Por exemplo: 52% acreditam que Bolsonaro ainda reúne condições de liderar o país; 59% declaram-se contra a renúncia do capitão.

Submetido a dados assim, de aparência contraditória, é grande o risco de Bolsonaro extrair da pesquisa suas próprias confusões. Quem preferir lidar com conclusões precisa distinguir tolerar de apoiar. Tolerância não significa aceitar o que se tolera. Quer dizer apenas que a esperança do brasileiro ainda é maior do que o seu desespero.

Na guerra contra o coronavírus, o otimismo é mais cômodo do que o pessimismo. Até que o vírus provoque um colapso nos hospitais, o otimista sofreu menos. Mas não convém a Bolsonaro continuar cutucando a paciência alheia com o pé. Ela pode morder, pois há um limite depois do qual a tolerância deixa de ser uma virtude para virar apenas mais um vocábulo —como cúmulo ou, digamos, túmulo.

De acordo com o Datafolha, Henrique Mandetta amealhou à frente do Ministério da Saúde uma taxa de aprovação maior, muito maior do que o índice atribuído ao presidente da República. Os dados que piscam no placar são cintilantes: Mandetta 76% X 33% Bolsonaro.

"O Mandetta já sabe que a gente está se bicando há algum tempo", declarou dias atrás o presidente, antes de esclarecer que nenhum ministro é "indemissível". Será? Suponha que Mandetta fosse enviado para o olho da rua. Imagine que Bolsonaro, um personagem capaz de tudo, colocasse na Saúde um ministro incapaz de todo. A tolerância talvez virasse panela de pressão.

Mestre na criação de crises, Bolsonaro não sabe desfazê-las. Engalfinhou-se com governadores e prefeitos. Tornou-se minoritário no Congresso. Criou uma nova modalidade esportiva: Tiro à imprensa. Distanciou-se da banda técnica do ministério. Colocou em alerta ministros do Supremo.

Num cenário tão encrespado, o otimismo é natural. Sob Bolsonaro, o Planalto tornou-se a repartição pública onde há a maior possibilidade de se criar uma metodologia inteiramente nova de gestão. Caos não falta.

Para preservar o fiapo de tolerância popular em que sua Presidência encontra-se pendurada, Bolsonaro precisaria virar-se do avesso, desfazendo as crises que criou. Do contrário, a "gripezinha" pode transferir o seu governo da enfermaria para a UTI.

Josias de Souza