PUBLICIDADE
Topo

Mandetta insinua que Bolsonaro não saiu da caverna

Ueslei Marcelino/Reuters
Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

07/04/2020 04h57

Henrique Mandetta disse ter tirado o final de semana para ler. Retornou ao Mito da Caverna, que já leu "mais de 20 vezes desde a adolescência". Coisa fina. História trançada por Platão no seu diálogo mais célebre: "A República." Trata-se de uma alegoria sobre o conhecimento (pode me chamar de ciência).

O filósofo ensina no texto que, acorrentados à ignorância, os homens são privados do aprendizado. Contentam-se com as sombras projetadas na parede da caverna. Qualquer semelhança com Jair Bolsonaro não é mera coincidência.

No enredo de Platão, os homens olhavam permanentemente para o fundo da caverna. Não havia opção. Estavam acorrentados numa posição que não lhes permitia virar na direção da entrada. Nas suas costas, havia uma fogueira.

Diante do fogo, passavam pessoas. Elas gesticulavam. Manuseavam objetos. A movimentação produzia sombras que, projetadas na parede do fundo da caverna, representavam toda a realidade que os prisioneiros conheciam.

Súbito, um dos prisioneiros livrou-se das correntes. Virando-se, enxergou a fogueira, usina de sombras. Atraído pela luz verdadeira que se insinuava na entrada, o homem saiu da caverna. Encantou-se com a claridade. Ao procurar a fonte de tamanha irradiação, deu de cara com o Sol.

O homem perdeu momentaneamente a visão. Angustiou-se com a perspectiva de privar-se tão rapidamente da luz verdadeira. Recuperou a vista. E enxergou a natureza ao redor. Caindo-lhe a ficha, se deu conta de que os prisioneiros da caverna precisavam aprender a olhar o sol. Primeiro, o susto. Depois, o prazer da descoberta, do aprendizado do conhecimento.

Mandetta não enfiou Platão no seu drama aleatoriamente. Seria um desperdício. Melhor supor que o futuro-provável-ex-ministro tenha desejado estabelecer um paralelo entre a caverna e o Planalto, onde Bolsonaro e seus súditos, acorrentados a superstições, vivem num universo paralelo de sombras.

Na história de Platão, o homem que se livrou das correntes e conseguiu vislumbrar o sol voltou à caverna para contar aos acorrentados que havia uma realidade além das sombras. Foi morto. Enxergava demais. Seus novos conhecimentos quebravam a paz propiciada pela ignorância.

Supondo-se que Mandetta tenha desejado construir sua própria alegoria a partir das metáforas de Platão, a mania do ministro de combater o coronavírus à luz da ciência faria dele o ex-acorrentado que viu a luz solar —aquele que morre no final, ao tentar libertar a turma da caverna dos grilhões da ignorância.

Desde Platão existe uma coceira, uma tentação, uma dúvida hedionda: não seria melhor entregar o governo aos sábios, já que os loucos não resolvem? Bolsonaro ressuscita a interrogação.

Mandetta disse ter lido o Mito da Caverna pela primeira vez aos 14 anos. Desde então, revisitou o texto duas dezenas de vezes. "Até hoje não consigo entender. Continuei sem entender". A permanência do doutor na Esplanada, de fato, desafia a compreensão e vã filosofia.

Josias de Souza