PUBLICIDADE
Topo

Aliança com centrão devolve Bolsonaro às origens

Ueslei Marcelino
Imagem: Ueslei Marcelino
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/05/2020 02h03

Toda campanha eleitoral tem um quê de teatro. Em 2018, Bolsonaro exagerou na teatralização. Fez isso, por exemplo, quando criticou o então rival tucano por se aliar ao centrão. "Obrigado, Geraldo Alckmin, por ter unido a escória da política brasileira", declarou na época. Agora, Bolsonaro enfia dentro do seu governo a escória.

Não é que a aliança com o rebotalho deixe Bolsonaro diferente. A questão é que Bolsonaro volta a ser quem ele era antes do teatro de 2018. O capitão já passou por sete partidos políticos. Entre eles o PP de prontuários notórios como Paulo Maluf, Arthur Lira e Ciro Nogueira —legenda com a qual se reencontra agora.

Na fase de composição da chapa, Bolsonaro buscou uma aliança com o PR de Valdemar Costa Neto, agora rebatizado de PL. Mas o ex-presidiário mensaleiro preferiu Alckmin. E Bolsonaro passou a cuspir no prato em que Valdemar não permitiu que ele comesse.

Ao escolher o partido pelo qual disputou a Presidência, Bolsonaro optou pelo PSL, um pedaço daquilo que chamava de escória. O PSL compôs, ao lado do centrão, a milícia parlamentar de Eduardo Cunha. Na apreciação das duas denúncias criminais contra Michel Temer, a bancada do PSL juntou-se à ala dos coveiros, ajudando a sepultar as acusações da Procuradoria.

Graças ao excesso de teatro, Bolsonaro cavalgou a Lava Jato como um jóquei antissistema, como se não carregasse sobre os ombros 28 anos de mandato. O reencontro de Bolsonaro com o centrão apenas reforça a noção de que, na política, o novo pode ser uma coisa muito antiga.

Depois da vitória eleitoral Bolsonaro teve a oportunidade de fazer algo diferente. Mas ele nem tentou. Agora, entrega cargos a apadrinhados de investigados. Como o deputado Sebastião Oliveira, do PL, que recebeu a visita dos rapazes da Polícia Federal um dia depois de copatrocinar a indicação do novo chefe do Dnocs, o Departamento Nacional de Obras contra Seca.

Sebastião Oliveira é varejado pela polícia porque o acusam de desviar algo como R$ 4 milhões das obras de uma rodovia. Bolsonaro não esboçou reação. Nada! Nem mesmo uma cara de nojo. Acabou o teatro. A aliança com o centrão devolve Bolsonaro às origens. Em tempo de isolamento social, o capitão reencontrou sua turma.

Josias de Souza