PUBLICIDADE
Topo

Bolsonaro celebra pracinhas, mas ignora guerra atual

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/05/2020 04h47

A propósito do aniversário do Dia da Vitória, que marca o fim da Segunda Guerra, Jair Bolsonaro celebrou "os heróis da Força Expedicionária Brasileira." Coisa muito bem lembrada.

Durante todo o ano em que combateu o exército alemão na Itália, a FEB perdeu 462 pracinhas. Merecem ser enaltecidos.

No penúltimo recorde contabilizado pelo Ministério da Saúde, o coronavírus fez em 24 horas um estrago maior, levando à cova 751 brasileiros. Para esses mortos, Bolsonaro costuma indagar: "E daí?"

No total, o número de cadáveres da guerra sanitária já roça a casa dos 10 mil, superando em mais de 20 vezes a quantidade de caixas de madeira e de zinco vindas da Itália com os restos mortais dos pracinhas e depositados no Monumento Nacional aos Mortos da 2ª Guerra, no Rio de Janeiro.

Dizia-se que era mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil participar da Segunda Guerra. Vem daí o lema da Força Expedicionária: "A cobra está fumando".

Hoje, é mais fácil o vírus fumar um charuto do que Jair Bolsonaro assumir as responsabilidades de um presidente na guerra contra a pandemia.

"A FEB simboliza o melhor de nosso povo: a união na adversidade e a coragem diante de qualquer desafio", anotou Bolsonaro nas redes sociais.

Pena que na guerra sanitária a Presidência do capitão simbolize o pior que um pseudo-governante tem a oferecer: a desunião na adversidade e a fuga diante do desafio de assumir responsabilidades.

Líderes certos fazem história. Certos líderes servem apenas para comprovar que a diferença histórica entre a coragem e a covardia é que a coragem tem limites.

Neste sábado, Bolsonaro promete fazer um churrasco, não história.

Josias de Souza