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Confiança de Bolsonaro sobre 2022 destoa dos fatos

ADRIANO MACHADO
Imagem: ADRIANO MACHADO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

10/05/2020 21h34

"Vou sair em 1º de janeiro de 2027", disse Jair Bolsonaro, em timbre resoluto, a um homem que ousou pronunciar uma frase incomum no cercadinho do Alvorada: "A democracia pede sua renúncia ou impeachment." A resposta do capitão revela que ele continua dando de barato que será reeleito em 2022. Será?

Na política, como na vida, o futuro é condicionado por uma tríade implacável: a morte, o erro e o imprevisto. O coronavírus dissolveu todas as certezas. Bolsonaro reage à pandemia como se desejasse subverter o brocardo, provando que é errando que se aprende... a errar. Seu projeto político não morreu, mas subiu no telhado.

Se tiver o que mostrar em 2022, será bom que Bolsonaro se recandidate. O diabo é que, além de lidar inadequadamente com a crise sanitária, o presidente não exibe credenciais para construir a estabilidade política indispensável ao enfrentamento da depressão econômica que está por vir. Ao contrário, Bolsonaro fabrica crises.

Há dois meses, Bolsonaro cultivava a polarização com o PT. Equipava-se para uma disputa em que um preposto de Lula iria às urnas como candidato favorito a fazer do adversário o presidente reeleito do Brasil. Com o vírus, essa lógica bateu num iceberg. E não se sabe quem sobreviverá.

Representado no segundo turno de 2018 por Fernando Haddad, Lula continua arrastando pela conjuntura as correntes da inépcia de Dilma e da epidemia de corrupção que levou ao mensalão e ao petrolão. De resto, o isolamento social impôs à divindade petista uma espécie de prisão domiciliar.

Bolsonaro tinha duas bolas na marca do pênalti: a Lava Jato e a recuperação econômica. Perdeu ambas. O lavajatismo era de vidro. E se quebrou com a estrepitosa saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça. A promessa de prosperidade mixou antes da pandemia. Com o vírus, foi para o beleléu.

Desde o início da crise do coronavírus, Bolsonaro oscila entre o negacionismo da "gripezinha" e o irrealismo da "volta à normalidade". Ao expressar sua aversão ao isolamento social, o presidente disse uma frase que resume sua visão sobre o drama: "Se a economia afundar, afunda o Brasil, acaba o meu governo."

Não há a mais remota dúvida quanto ao mergulho da economia. Sabendo disso, Bolsonaro luta pela sobrevivência política jogando a culpa pela depressão e o desemprego que estão por vir no colo de governadores, prefeitos e ministros do Supremo Tribunal Federal.

Bolsonaro condenou-se a fazer campanha eleitoral num lugar inóspito. Nem palanques nem redes sociais. Pedirá votos em 2022 ao lado da pilha de cadáveres de 2020. Afora os nomes óbvios de sempre, há ainda muitas dúvidas sobre a lista de candidatos.

Haverá governadores no rol de postulantes? A imagem de Sergio Moro sobreviverá aos ataques da milícia virtual do bolsonarismo? Luciano Huck levará a cara à vitrine? O vírus tornou a disputa mais, digamos, aberta.

O processo eleitoral vai perdendo gradativamente a aparência que Bolsonaro tentava dar à disputa, tratada por ele como mera formalidade para renovar o mandato de um mito.

Josias de Souza