PUBLICIDADE
Topo

Bolsonaro revela-se um chefe de organização familiar

Roberto Jayme/Ascom/TSE
Imagem: Roberto Jayme/Ascom/TSE
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

13/05/2020 02h45

Jair Bolsonaro chegou à Presidência surfando a irritação do eleitorado com as organizações criminosas que saquearam o Estado brasileiro. Prevaleceu no tranco, sem máquina partidária. No poder, revelou-se chefe de uma organização familiar. Desfiliou-se do PSL. Seu partido é a família.

Durante a campanha, quando questionado sobre planos de governo, Bolsonaro repetia um versículo do Evangelho de João: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." O caso da PF traz à tona uma verdade dura de roer: a agenda secreta do presidente é o favorecimento do seu clã.

Confirmou-se o que revelara Sergio Moro, autoconvertido em delator à espera de receber um prêmio em 2022. Bolsonaro foi mesmo gravado em reunião ministerial trombando com seu ministro da Justiça para trocar o chefe da Polícia Federal no Rio de Janeiro.

Transgressor didático, Bolsonaro abdicou dos métodos tradicionais de ocultamento. Espalhou as pistas que agora facilitam a reconstituição dos seus movimentos. Agiu com espalhafato.

Na reunião ministerial de 22 de abril, diante das câmeras e de três dezenas de autoridades, o presidente sapecou um palavrão. E declarou que não esperaria que sua família e seus amigos fossem prejudicados para trocar a chefia da PF no Rio, berço de suas aflições.

Em vez de libertar, a verdade das urnas acorrentou o país ao líder de uma dinastia com a imagem já bem rachadinha. Gente amiga de um tal Fabrício Queiroz, que tem conhecidos no ramo das milícias, muito pujante no Rio.

Desde o ano passado, Bolsonaro emitia sinais de que não mediria esforços para continuar sendo, à sua maneira, um ótimo pai. Não chegou a fornecer bons exemplos. Mas espalhou fabulosos avisos.

"Lógico, pretendo beneficiar filho meu, sim. Pretendo, se puder, dar filé mignon", declarou o capitão, na época em que tentou emplacar o Zero Três Eduardo na poltrona de embaixador do Brasil em Washington.

Num esforço para proteger o Zero Um Flávio, o capitão desligou o Coaf da tomada, transferindo-o das mãos de Sergio Moro para os fundões do Banco Central.

Ultimamente, Bolsonaro anda inquieto com um inquérito sobre fake news, que roça os calcanhares do Zero Dois Carlos no Supremo Tribunal Federal. Coisa relatada pelo ministro Alexandre de Moraes.

A família é como varíola, ensinou Jean-Paul Sartre. "A gente tem quando criança e fica marcado para o resto da vida." Na organização familiar dos Bolsonaro, quem sai aos seus não endireita.

O pai abriu caminho na política. Vieram os filhos: um vereador, um deputado e um senador. Está no forno a candidatura do Zero Quatro Renan. Na filhocracia, os Bolsonaro não se sentem pessoas públicas. O país é que lhes atrapalha a vida privada, 100% bancada pelo patrimonialismo.

Josias de Souza