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Sobre saúde pessoal, o capitão exige o que sonega

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

13/05/2020 19h51

Depois de guerrear judicialmente por quase dois meses para manter na gaveta seus exames de covid-19, Jair Bolsonaro fez por pressão o que deixou de fazer por opção. Informado de que sofreria nova derrota no Supremo Tribunal Federal, o presidente mandou entregar os exames ao ministro Ricardo Lewandowski. Os testes revelam que Bolsonaro não foi infectado.

Simultaneamente, em entrevista no cercadinho do Palácio da Alvorada, Bolsonaro voltou a criticar o médico Davi Uip por não ter informado se usou cloroquina quando teve de se tratar da Covid-19. O presidente utilizou termos duros: "Este é o caráter do cara que está ao lado do Doria". Como se vê, em matéria de saúde pessoal Bolsonaro cala demais, mas também fala demais.

Infectologista de mostruário, Davi Uip não é governante. Integra voluntariamente o Centro de Contingência do Coronavírus montado pelo governador de São Paulo, João Doria. Infectado, o doutor levou o diagnóstico à vitrine e se recolheu. Curado, preferiu se abster do risco de virar inimigo ou garoto-propaganda da cloroquina. Fez bem.

No caso de Bolsonaro, o direito à privacidade deixou de ser irrestrito no instante em que as urnas o consagraram presidente. Candidatou-se porque quis. Eleito, sua saúde passou a ser tema de interesse público.

A alegação de que Bolsonaro teria direito de manter os exames em segredo converteu-se numa nova modalidade de desperdício de dinheiro público. Durante dois meses, a Advocacia da União manteve profissionais do ramo para defender o indefensável em todas as instâncias do Judiciário.

Levando-se em conta que Bolsonaro considera que transparência no prontuário médico dos outros é refresco, cabe perguntar: "Que conceito a opinião pública deve fazer do caráter de um presidente que se recusa a divulgar os exames que atestam o seu estado de saúde?

Josias de Souza