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Bolsonaro eleva tensão da guerra com governadores

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

15/05/2020 00h28

Jair Bolsonaro elevou o tom de sua campanha pela retomada da atividade econômica. Em videoconferência com empresários, o presidente disse que o país está em guerra. Ele tem razão. O problema é que Bolsonaro decidiu combater o inimigo errado. Em vez de guerrear contra o vírus, Bolsonaro combate os governadores. Pede ao empresariado paulista que jogue pesado contra João Doria, a quem trata como seu principal rival.

Nenhuma guerra é desejável. Para complicar o que já não é simples, Bolsonaro transforma a guerra contra o vírus no pior tipo de conflito —um conflito em que não há um embate entre o certo e o errado, mas várias batalhas entre dois certos. Bolsonaro, os governadores e as torcidas do Flamengo e do Corinthians reunidas desejam retornar à normalidade, religando as fornalhas da economia. A diferença está na forma como cada um quer atingir esse objetivo.

O presidente prega a reabertura imediata do comércio, com a interrupção da política do isolamento social. Os governadores sustentam que é preciso manter o isolamento para evitar a explosão do contágio, que disseminaria pelo país o caos hospitalar que já ocorreu em várias partes do mundo e se observa em algumas cidades também no Brasil. Considerando-se que os dois lados perseguem o mesmo objetivo, o que deveria ocorrer é uma negociação para encontrar pontos de contato que permitissem às partes combater o inimigo certo: o vírus.

A experiência internacional mostra que a flexibilização prematura e desordenada do isolamento, como quer Bolsonaro, é um erro tão grave quanto a negação que levou vários governantes ao redor do mundo a retardar providências inevitáveis. O presidente diz estar pronto para conversar. Ao mesmo tempo, afirma que os governadores precisam reconhecer os seus erros e pedir perdão à sociedade. Diálogo bom, para Bolsonaro, é aquele em que ele faz o interlocutor calar a boca. Enquanto os governantes brigam, o vírus mata.

Josias de Souza