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Bolsonaro terceiriza ao centrão sua 'lealdade' ao povo

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) - ADRIANO MACHADO
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) Imagem: ADRIANO MACHADO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/05/2020 16h01Atualizada em 18/05/2020 23h42

Jair Bolsonaro fazia pose de político atípico. Essa encenação perdeu o prazo de validade. O presidente consolida a aparência de um típico político brasileiro. Grosso modo falando. Ao participar de mais uma aglomeração dominical defronte da rampa do Planalto, Bolsonaro caprichou na retórica: "Agradeço a esse povo maravilhoso que está aqui, ao qual devo lealdade absoluta. É o que precisamos: política ao lado do povo, tendo o povo como patrão."

Nesta segunda-feira, o Diário Oficial informa que o povo é patrão na retórica, mas na prática Bolsonaro continua terceirizando cofres públicos aos sócios do centrão. Dessa vez, entregou ao PL, partido controlado como um cartório pelo mensaleiro Valdemar Costa Neto, a Diretoria de Ações Educacionais do FNDE, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.

As ideias educacionais de Valdemar são desconhecidas. Mas o apetite do oligarca e de sua legenda por verbas públicas é de conhecimento geral. Isso não impediu Bolsonaro de acomodar Garigham Amarante Pinto, o preposto de Valdemar, nas cercanias do cofre do FNDE, que tem um orçamento de R$ 55 bilhões neste ano. O PL levou uma diretoria. Nos próximos dias, o PP arrematará a presidência do fundo.

Dizia-se que a missão de Abraham Weintraub era expurgar esquerdistas do MEC. O ministro faz cara de nojo. Mas continua no cargo. Ajusta-se rapidamente com os dinheiristas.

Bolsonaro já havia terceirizado ao centrão o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (PP) e a secretaria de Mobilidade Urbana do Ministério do Desenvolvimento Regional (Republicanos). Outros cargos serão distribuídos. Ao final do rateio, o centrão controlará um pedaço do Orçamento estimado em R$ 78 bilhões.

O Brasil volta a viver seu eterno terror pendular. O roteiro não muda: os presidentes entram botando banca e vão deslizando docemente para a grande vala comum do centrão.

A suposta "lealdade absoluta" de Bolsonaro ao povo balança entre o personalismo defensivo e o arrombamento fisiológico que o centrão impõe aos presidentes em apuros.

Errata: o texto foi atualizado
A legenda da foto que ilustra esse artigo identifica incorretamente o presidente Jair Bolsonaro. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza