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Bolsonaro responde às mortes com ficção científica

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

20/05/2020 20h53

O novo protocolo do Ministério da Saúde sobre o uso da cloroquina no tratamento da covid-19 não é uma peça médica. Trata-se de um documento marcial. Eduardo Pazuello, o general improvisado interinamente no cargo de ministro da Saúde, cumpriu uma ordem de Jair Bolsonaro, comandante em chefe das Forças Armadas. Isso tem a ver não com a saúde dos pacientes, mas com a guerra ideológica que o presidente criou para ocupar o tempo vago que ele obteve quando abriu mão de presidir a crise do coronavírus.

Até aqui, o Ministério da Saúde restringia o uso da cloroquina apenas para pacientes hospitalizados e em estágio grave da doença. O novo protocolo indica a cloroquina para todas as fases da covid-19, inclusive para doentes não hospitalizados, com sintomas leves de contaminação. Não há no protocolo o aval de nenhum médico. O documento faz questão de anotar que não existem análises ou ensaios clínicos que comprovem os "benefícios inequívocos" da cloroquina no tratamento da covid-19. E deixa a critério dos médicos a prescrição, exigindo a concordância por escrito dos pacientes.

Não é que o governo esteja lavando as mãos. O problema é que o protocolo autoriza os médicos a ensaboarem suas mãos na mesma bacia. E ainda esconde o sabonete dos pacientes e dos seus familiares. Se isso fosse levado a sério, o que não deve ocorrer, na hipótese de que alguém tivesse complicações cardíacas ou hepáticas em função do uso da cloroquina, não poderia culpar senão a si mesmo. A irresponsabilidade do Ministério da Saúde e dos médicos estaria escorada no protocolo editado por ordem de Bolsonaro.

Ao anunciar a mudança numa entrevista, Bolsonaro fez piada. Quem é de direita, disse ele, toma cloroquina. Quem é de esquerda toma tubaína. O presidente deu gargalhadas num instante em que o número de mortos num único dia passou de mil. O drama sanitário vai ganhando contornos de tragédia histórica. E Bolsonaro trata a ciência como ficção científica. Ele não se deu conta, mas nessa matéria a fronteira da imaginação é a realidade. Os fatos apresentarão a Bolsonaro uma conta pelo seu comportamento. O preço político aumenta na proporção direta do crescimento do número de mortes.

Josias de Souza