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Há duas suspeitas a esclarecer no escândalo do Rio

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/05/2020 00h46

Há dois tipos de suspeita no caso do desvio de verbas que deveriam ser usadas no combate à pandemia no Rio de Janeiro. A primeira envolve o roubo do dinheiro da saúde, agora com o acréscimo de acusações dirigidas ao governador do Estado, Wilson Witzel. A segunda suspeita vem embutida na alegação de Witzel de que está sendo vítima de perseguição política. Noutros tempos, essa modalidade de alegação seria simplesmente ignorada. Depois que Bolsonaro transformou a Polícia Federal num problema, a hipótese de retaliação de inimigos tornou-se tão natural quanto a intenção declarada do presidente de evitar "sacanagens" contra familiares e amigos.

A rotina da corrupção brasileira deixa novamente de ser rotina e vira uma emergência quando alguém decide assaltar verbas que deveriam ser empregadas para salvar vidas. Se isso acontece no Rio, onde a cadeia virou habitat natural de ex-governadores, o descalabro roça o apogeu. Se há digitais do atual governador no assalto, a punição precisa ser rápida e exemplar.

Abre-se, então, o parêntese. Entre a investigação do assalto e os indícios que conduziram ao governador surgem o inquérito em que Bolsonaro é investigado por suspeita de intervenção política na PF, o vídeo da reunião ministerial em que o presidente chama Witzel de "estrume" e a entrevista em que uma deputada bolsonarista diz a uma rádio, na véspera da operação, que a PF agiria contra governadores. Fecha parêntese.

É preciso colocar tudo em pratos bem asseados, esclarecendo o assalto e afastando a suspeita de uma ação política. A operação não envolve apenas a Polícia Federal. Há pedido do Ministério Público e autorização do ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça, o STJ. Espera-se que o manual tenha sido respeitado. Fica evidente a necessidade de assegurar que a PF continue sendo um órgão de Estado. Confirmando-se o envolvimento de Witzel, com a participação de um escritório de advocacia de sua mulher, Helena, a condenação precisa ter uma pena adicional. O governador deveria ser condenado a pagar royalties ao casal Sergio Cabral e Adriana Anselmo.

Josias de Souza