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Bolsonaro assiste à dispersão do poder presidencial

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

28/05/2020 22h53

Esse comentário começa com um aviso: retire as crianças da sala. Será reproduzido aqui um vocábulo chulo usado pelo presidente da República. A dois anos e sete meses do final do governo, o país lida com um problema gigantesco: a pequenez do presidente. Jair Bolsonaro revela-se menor do que as crises que assediam o seu mandato. Num momento em que poderia se engrandecer no encaminhamento adequado de duas crises —a sanitária e a econômica— o presidente continua percorrendo a conjuntura à procura de briga.

O coronavírus e a economia tornaram-se assuntos secundários para Bolsonaro. O presidente age como se priorizasse outros dois objetivos estratégicos: não cair e passar a impressão de que faz e acontece. Foi nesse contexto que o presidente realizou dois movimentos contraditórios.

Num, ele recorreu ao Supremo pedindo o trancamento do inquérito sobre fake news. Noutro, ele declarou no cercadinho do Alvorada que não admitirá "decisões individuais" e insinuou que a Polícia Federal não voltará a cumprir o que chamou de "ordens absurdas" do Supremo. Bolsonaro fez uma bravata: "Acabou, porra!"

Bolsonaro sabe que não acabou. Está apenas começando. Ao escalar o ministro da Justiça, André Mendonça, para fazer as vezes de advogado de Abram Weintraub e dos parlamentares, ativistas e empresários bolsonaristas acusados de industrializar notícias falsas, o presidente arrastou para dentro do seu governo o inquérito sobre fake news. Com isso, ele antecipa o próximo estágio da crise, que é o envolvimento dos seus filhos, Carlos e Eduardo Bolsonaro, nessa encrenca.

Quando diz "acabou", o presidente declara, com outras palavras, mais ou menos o seguinte: "Se mexer com meus meninos e com as nossas redes sociais, vai ter troco." Quando um presidente precisa dar declarações fortes para demonstrar seu poder, é porque sua Presidência tornou-se fraca. E presidências fracas levam a uma fragmentação do Poder. É esse o fenômeno que nós estamos assistindo no momento: a dispersão do poder presidencial.

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Josias de Souza