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Mourão já pregou intervenção militar 'constitucional'

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

02/06/2020 04h24

O vídeo acima, gravado durante o governo de Michel Temer, em 15 de setembro de 2017, expõe uma palestra do então Secretário de Economia e Finanças do Exército, general Hamilton Mourão. Nela, o agora vice-presidente da República declarou que seus "companheiros do Alto Comando do Exército" avaliam que uma "intervenção militar" pode ocorrer se o Judiciário "não solucionar o problema político". Referia-se à corrupção.

Vale a pena atrasar o relógio para ouvir Mourão. "Quando nós olhamos com temor e com tristeza os fatos que estão nos cercando, a gente diz: 'Pô, por que que não vamos derrubar esse troço todo?'", ele perguntou numa palestra para maçons, em Brasília.

Na sequência, informou qual era a sua "visão" da conjuntura: "...Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso."

Hoje, na condição de potencial beneficiário de um eventual impeachment de Bolsonaro, Mourão acompanha em silêncio o debate sobre o artigo 142 da Constituição. Intérpretes extravagantes do texto sustentam que ele credenciaria as Forças Armadas para atuar como Poder moderador em caso de crise institucional.

O Mourão de 2017, ainda um general da ativa, soava categórico. Dizia que poderia chegar um momento em que os militares teriam que "impor" uma intervenção. Àquela altura, segundo Mourão, os integrantes do Alto Comando do Exército avaliaram que ainda não era hora de entrar em ação. Algo que poderia ocorrer depois de "aproximações sucessivas".

"Até chegar o momento em que ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso.", disse Mourão. "Então, se tiver que haver, haverá. Mas hoje nós consideramos que as aproximações sucessivas terão que ser feitas".

Sob Bolsonaro, Mourão ajusta seu repertório verbal para falar de outro tipo de aproximação. "Temos de buscar uma coalizão programática", disse o general dias atrás, numa videoconferência com um banco. "É óbvio que cargos, emendas e essas coisas fazem parte da negociação entre Executivo e Legislativo. Não adianta querer tapar o sol com a peneira. Acho que está mais ou menos sendo conduzido dessa forma."

Josias de Souza