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Bolsonaro critica o asfalto antes de ouvir o ronco

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/06/2020 22h52

Jair Bolsonaro parece atormentado pela síndrome do que está por vir. De repente, passou a se preocupar com as manifestações de rua. O presidente agradece de coração às pessoas que saem às ruas para apoiar o seu governo. Faz bem. Mas ele não repreende os devotos que sacodem faixas pedindo o fechamento do Congresso e do Supremo. Faz mal.

Com dificuldades para discernir apoiadores de golpistas, Bolsonaro olha para o lado oposto e acomoda todos os insatisfeitos com o seu governo embaixo de duas qualificações: "Marginais e terroristas". Essa generalização é tosca e perigosa. Numa conjuntura marcada pela radicalização, convém calibrar as palavras. Não basta dizer coisas definitivas. É preciso definir muito bem as coisas.

Numa democracia, o direito de manifestação é sagrado. Manifestante não é sinônimo de bandido. Cabe ao Estado garantir duas coisas. Primeiro, que os manifestantes possam ocupar o asfalto em paz, para reivindicar o que bem entenderem. Segundo, que os bandidos que derem as caras nas manifestações sejam transferidos da rua para a cadeia. Essas são as balizas.

O vice-presidente Hamilton Mourão escreveu num artigo que "a legítima defesa da democracia está fundada na prática existencial da tolerância e do diálogo." Precisa dizer isso para Bolsonaro. Mourão anotou no texto duas perguntas curiosas: "Aonde querem chegar? A incendiar as ruas do país, como em 2013?" Cabe indagar. Se a população chegar a um grau de insatisfação que justifique a repetição de 2013, por que deveria ser privada de reocupar o asfalto?

Ninguém afirma, talvez por constrangimento, mas o governo Bolsonaro começou a nascer em 2013. O que houve no Brasil foi revolta popular que deslegitimou uma administração liderada pelo PT, vitaminou uma cruzada anticorrupção, estilhaçou o sistema partidário e pulverizou as lideranças políticas clássicas. Foi graças a esse tsunami que um deputado como Bolsonaro conseguiu saltar do baixíssimo clero da Câmara para o Planalto. Não parece razoável que esse presidente queira agora desqualificar o asfalto antes de ouvir o ronco.

Josias de Souza