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Bolsonaro não consegue diferenciar destino de descaso

                                SERGIO LIMA/AFP
Imagem: SERGIO LIMA/AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/06/2020 18h58

O veto de Jair Bolsonaro à destinação de R$ 8,6 bilhões para o combate ao coronavírus orna com a prioridade que o presidente atribui à pandemia. Na sua declaração mais recente sobre o flagelo sanitário brasileiro, Bolsonaro declarou: "A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo." Há nesse tipo de comentário um conformismo que ofende a realidade.

Uma pandemia pode ser atribuída ao destino. Entretanto, um governo que, submetido à pandemia, afasta dois ministros da Saúde com formação médica, mantém o ministério aos cuidados de um general leigo e entrega o setor de vigilância da Saúde ao centrão... um governo assim não é fruto do destino, mas do descaso.

Ao tratar com naturalidade a morte dos mais de 30 mil brasileiros que o vírus já levou, Bolsonaro não maltrata apenas a inteligência alheia. Ele ofende os seus próprios interesses políticos. Parece descuidar da sobrevivência do seu projeto eleitoral.

A morte política significa, em última análise, um pouco de vocação. Há governantes que se mostram tão pouco ativos naquilo que de fato interessa à sociedade que o eleitor pode ficar tentado, em algum momento, a jogar uma pá de cal sobre os palácios.

Esse raciocínio vale para presidente, para governador, para prefeito... A pandemia emite sinais de que ainda não atingiu o seu ápice no Brasil. Em algum momento, a sociedade vai avaliar o comportamento dos administradores públicos. Para alguns, essa avaliação pode ter o peso de uma lápide.

Seria precipitado antecipar o futuro de Bolsonaro. Mas pode-se dizer que os gestos e os comentários do presidente não o favorecem. O penúltimo ministro da Saúde, Nelson Teich, deixou o cargo em 15 de maio. Com um atraso de quase 20 dias, Bolsonaro preencheu provisoriamente o cargo, formalizando a interinidade do general Pazuello, apenas nesta quarta-feira (3).

Na pandemia, lavar as mãos é uma recomendação sanitária, não um conselho administrativo. O excesso de mortes poderia funcionar para Bolsonaro como um grande despertar. Mas o presidente se recusa a retirar do destino razões para corrigir o seu descaso.

Josias de Souza