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Governo denuncia o crime do racismo cometendo-o

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Imagem: Reprodução
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/06/2020 02h50

Os críticos e Jair Bolsonaro se exaurem tentando analisar sua administração sob a ótica da lógica e do bom senso. Querem enquadrar em conceitos clássicos um governo que não se encaixa em nenhum modelo acadêmico. Bolsonaro opera com método próprio.

Na Fundação Palmares, vinculada à Secretaria Nacional de Cultura, a metodologia administrativa de Bolsonaro roça a perfeição. Ali, encontrou-se uma maneira revolucionária de demonstrar a discriminação contra o negro no Brasil. O governo denuncia o crime do racismo cometendo-o.

Bolsonaro quebrou lanças na Justiça para colocar no comando da fundação responsável por zelar pelos interesses da comunidade afrodescendente o jornalista negro Sérgio Camargo. Descobriu-se de saída que ele acredita que escravidão foi "benéfica para os descendentes" dos escravos.

Veio à luz agora uma gravação feita em reunião com assessores sem que o mandachuva da fundação soubesse. Discutia-se o sumiço de um celular de Sérgio Camargo. "Quem poderia ter feito isso?", indagou o presidente da fundação. "Os vagabundos do movimento negro, essa escória maldita", disse o executivo negro.

Na mesma fita, a voz de Sérgio Camargo soa esculhambando o líder negro que dá nome à fundação dirigida por ele: "Não tenho que admirar Zumbi dos Palmares, que também era um filho da puta que escravizava pretos." Desancou uma mãe de santo, chamando-a de "uma filha da puta de uma macumbeira."

Camargo é um gestor rigoroso. Cobra resultados dos subordinados: "Esses filhos da puta da esquerda não admitem negros de direita. Vou colocar meta aqui para todos os diretores: cada um entregar um esquerdista. Quem não entregar esquerdista vai sair. É o mínimo que vocês têm que fazer."

Bolsonaro revela-se uma caricatura do conservadorismo. Confunde-se com o arcaísmo. Tem a missão secreta e inconsciente de expor o atraso do Brasil. Depois da passagem de Sérgio Camargo pela Fundação Palmares ninguém pode duvidar da existência de um racismo estrutural no Brasil.

Só mesmo um presidente revolucionário como Bolsonaro conseguiria executar com tanto êxito um plano de autodesconstrução. Não ajuda na reeleição. Ao contrário, aprofunda a decomposição. Mas escancara didaticamente séculos de hipocrisia.

Josias de Souza