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Flávio faz Bolsonaro aderir ao isolamento social

Reuters
Imagem: Reuters
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/06/2020 18h43

O ressurgimento de Fabrício Queiroz produziu algo inimaginável. Jair Bolsonaro tornou-se adepto da tática do isolamento social. Nas primeiras reações à prisão do velho amigo, o presidente deu a impressão de que deseja se isolar. Na live que transmitiu ao vivo pelas redes sociais na noite de quinta-feira, Bolsonaro isolou-se do próprio filho mais velho. Conseguiu a façanha de falar sobre o caso Queiroz sem defender Flávio Bolsonaro.

O silêncio de Bolsonaro diz muito sobre a precariedade da situação do filho. Flávio já recorreu uma dezena de vezes ao Judiciário para tentar trancar o inquérito que fareja suas contas e o seu patrimônio. Bolsonaro esqueceu o filho, mas rendeu uma solidariedade sanitária a Fabrício Queiroz, isolado em quarentena numa cela do sistema prisional do Rio de Janeiro. Disse que não é advogado do Queiroz, mas realçou que ele não estava foragido. Bolsonaro condenou a "prisão espetaculosa" do amigo, tratado como se fosse "o maior bandido da face da Terra."

Numa evidência de que os Bolsonaro não se equiparam adequadamente para o pior, Flávio se move como se desejasse romper o isolamento idealizado pelo pai. Com a imagem já bem rachadona, o senador trombeteia a tese segundo a qual seu infortúnio é resultado de "perseguição política" de gente interessada em desestabilizar a Presidência de Bolsonaro.

Com essa estratégia, o Zero Um encosta o seu drama penal no governo do pai, furando o isolamento ensaiado por Bolsonaro. Exposto ao contágio, o presidente logo terá de aderir à pregação de que tudo não passa de invenção de promotores ideológicos, mancomunados com a extrema-imprensa, em conexão com um juiz que não merece crédito porque tem uma filha empregada na assessoria do governo fluminense do inimigo Wilson Witzel. Não deixa de ser uma linha de defesa. O problema é que os fatos injetam nessa tática uma dose elevada de cinismo.

Josias de Souza