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Silêncio de Bolsonaro sobre Queiroz é eloquente

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/06/2020 19h37

Quem quiser entender o que está por trás do caso da rachadinha precisa prestar atenção no silêncio. Muitas vezes, em meio a grandes barulhos, o silêncio ajuda a decifrar a falta de argumento de certos personagens. A fuga de Márcia Oliveira Aguiar, mulher de Fabrício Queiroz, tem íntima relação, por exemplo, com o silêncio de Jair Bolsonaro. O presidente hesita em falar em público sobre a investigação que enferruja a biografia do seu filho, Flávio Bolsonaro.

Em política, há uma máxima que ensina o seguinte: Jamais diga uma mentira que não possa ser provada. Na noite do dia em que Queiroz foi preso, Bolsonaro aventurou-se a dizer meia dúzia de palavras sobre o fato de seu amigo tóxico estar guardado num imóvel de Frederick Wassef, que era até outro dia o advogado da família Bolsonaro.

O presidente tratou do tema com hedionda naturalidade. Disse que Queiroz não era fugitivo. Estava em Atibaia para ficar mais perto do hospital em que se tratava de um câncer. Dois dias depois, o advogado Wassef disse que Bolsonaro e seu filho Flávio não sabiam que Queiroz estava guardado no seu imóvel. No afã de proteger, acabou deixando o presidente sem nexo. Como dispunha de tantos detalhes se não sabia?

Marcia não é apenas mulher de Queiroz. Tornou-se operadora do operador. Daí o pedido de prisão. Mantinha uma contabilidade num caderninho apreendido pela polícia. Nele, está escrito que recebeu R$ 170 mil para custear o tratamento de saúde do marido. Pagou em dinheiro vivo os exames, a equipe médica e a internação no hospital Albert Einstein.

O Ministério Público sugere que a família Queiroz era protegida por um certo Anjo, codinome associado ao doutor Wassef, recém-destituído da função de advogado-ostentação da família Bolsonaro. Num cenário assim, só quem presta atenção ao silêncio consegue perceber a eloquência das palavras que não são ditas por personagens como Jair Bolsonaro.

Josias de Souza