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PF terá de interrogar Bolsonaro como mentiroso

                                EVARISTO SA/AFP
Imagem: EVARISTO SA/AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/06/2020 02h19

Nos próximos dias, a delegada federal Christina Correa Machado interrogará Jair Bolsonaro no âmbito do inquérito sobre a interferência política na Polícia Federal. Será um depoimento constrangedor.

A investigação triturou o enredo construído pelo presidente para tentar negar a denúncia de Sergio Moro. Será impossível inquirir Bolsonaro sem tratá-lo como autor de uma versão inverossímil —eufemismo para desculpa mentirosa.

O constrangimento será maior se for negada a Bolsonaro a prerrogativa de ser ouvido pela PF por escrito. A decisão caberá ao ministro Celso de Mello, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.

Considerando-se decisões anteriores de Celso de Mello, é grande a chance de Bolsonaro ter um tête-à-tête com a delegada. O decano do Supremo avalia que autoridades só podem depor por escrito quando falam como testemunhas.

A prerrogativa "não se estende nem ao investigado nem ao réu", escreveu Celso de Mello num de seus despachos. "Independentemente da posição funcional que ocupem na hierarquia de poder do Estado, deverão comparecer perante a autoridade competente em dia, hora e local por ela unilateralmente designados".

Uma das peças mais embaraçosas do inquérito é um ofício do general Augusto Heleno, amigo do presidente e ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional. O documento transforma em farelo o miolo da defesa de Bolsonaro.

Heleno anotou que "não houve óbices ou embaraços" para substituições na equipe de segurança de Bolsonaro e de seus familiares —em Brasília e no Rio de Janeiro. Confirmou a efetivação de algumas trocas.

"Por se tratar de militares da ativa, as substituições do secretário de Segurança e Coordenação Presidencial, do diretor do Departamento de Segurança Presidencial e do Chefe do Escritório de Representação do Rio de Janeiro foram decorrentes de processos administrativos internos do Exército Brasileiro", explicou Heleno.

Foi para o beleléu o argumento que Bolsonaro vinha esgrimindo para se contrapor a Moro. O presidente dizia que se dirigiu a Heleno, não a Moro, quando cobrou, em reunião ministerial de 22 de abril, mudanças na "segurança" do Rio de Janeiro.

Essa versão já cambaleava desde o dia em que veio à luz, por ordem de Celso de Mello, o vídeo com as cenas da fatídica reunião. Bolsonaro, de fato, não falou em Polícia Federal, mas olhou para Moro quando ultrapassou o sinal:

Bolsonaro soou assim na gravação: "Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar foder minha família toda, de sacanagem, ou amigo meu porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha, que pertence à estrutura nossa. Vai trocar. Se não puder trocar, troca o chefe dele. Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira".

De fato, Bolsonaro não estava para brincadeira. Foram à bandeja os escalpos de Moro e de Maurício Valeixo, então diretor-geral da Polícia Federal. Trocou-se o chefe da PF no Rio de Janeiro.

Interrogados, os generais palacianos, entre eles o próprio Heleno, deram cobertura ao lero-lero segundo o qual Bolsonaro falava na reunião de trocas hipotéticas na sua equipe de segurança. Não colou.

Notícia veiculada pelo Jornal Nacional já havia revelado que Bolsonaro não tivera dificuldades para substituir integrantes de sua segurança. Não restou a Heleno senão render-se aos fatos.

Bolsonaro foi desmentido pelos fatos noutro ponto crucial. Dissera que não havia na Polícia Federal nenhuma investigação envolvendo o filho Flávio Bolsonaro. Estava errado.

O que vem por aí é uma sequência de constrangimentos. Mais constrangedoras do que as perguntas que Bolsonaro terá de ouvir da delegada Christina serão as respostas que o presidente talvez não consiga dar.

O resultado final do inquérito irá para as mãos do procurador-geral da República Augusto Aras, a quem cabe decidir se oferece ou não denúncia contra Bolsonaro. O Planalto continua confiante na capacidade de Aras de constranger a plateia com o arquivamento do inquérito.

Josias de Souza