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Datafolha mostra que flerte de Bolsonaro com passado é ideia sem futuro

Bolsonaro em ato pró-intervenção militar e contra o Congresso e o STF em 19 de abril em frente ao QG do Exército - Reprodução/Facebook
Bolsonaro em ato pró-intervenção militar e contra o Congresso e o STF em 19 de abril em frente ao QG do Exército Imagem: Reprodução/Facebook
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

28/06/2020 05h34

Jair Bolsonaro tornou-se maestro da insensatez. Cada vez que atua como regente de aglomerações antidemocráticas, dá as costas para o pedaço da sociedade que tem ojeriza ao autoritarismo. O Datafolha informa que o flerte do capitão com o passado é mesmo uma ideia sem futuro. Descobriu-se que o apoio do brasileiro à democracia está em alta. Bateu em 75% —13 pontos percentuais acima dos 62% registrados na pesquisa anterior, feita em dezembro do ano passado.

Ao endossar tacitamente atos que pregam extravagâncias militares, Bolsonaro cria um problema que o brasileiro não deseja ter. Participou de meia dúzia de manifestações. Na mais escrachada, misturou-se a uma multidão de adoradores defronte do quartel-general do Exército. Empoleirado numa carroceria de caminhonete, discursou para portadores de faixas que pediam o fechamento do Congresso, do Supremo e a volta de uma ditadura com AI-5.

"Não queremos negociar nada", vociferou, língua em riste. "É agora o povo no poder". Silenciou sobre o teor das faixas. Indagado na manhã seguinte, disse que não tinha nada a ver com elas. Dias depois, confundiu os generais que o rodeiam com generalidades: "Minhas Forças Armadas". Teve um arroubo de autocrata: "Eu sou, realmente, a Constituição". Fez cara feia para o Supremo: "Acabou, porra!"

O excesso de bolsonarices levou a Procuradoria-Geral da República a requisitar no Supremo a abertura de inquérito para investigar as manifestações antidemocracia. Curiosamente, o procurador Augusto Aras excluiu Bolsonaro do rol de investigados. Estão sob cerco judicial ativistas, parlamentares e empresários bolsonaristas. Mas convencionou-se que Bolsonaro não tem nada a ver com coisa nenhuma. Mal comparando, é como investigar a origem das escamas sem examinar o peixe.

Houve um tempo em que a "democracia" brasileira levava aspas. Nessa época, havia três poderes: Exército, Marinha e Aeronáutica. Após a redemocratização, quando o voto tirou as aspas da democracia, passaram a existir quatro poderes: o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e o Dinheiro da corrupção, que antes era acobertado pela censura. Sob Bolsonaro, o sistema político brasileiro atingiu o ápice da originalidade. Virou uma democracia cuja Presidência está 100% isenta de democrata.

Na campanha de 2018, o capitão formou com o general Hamilton Mourão uma chapa puro-sangue militar. Cavalgando sobre os escombros de um sistema político apodrecido, prevaleceu sobre o petismo no segundo turno. Três meses depois de subir a rampa, empurrado pelos seus 57,7 milhões de votos, Bolsonaro ofereceu ao país uma ideia do que estava por vir.

Em um ano e meio de governo aconteceram tantas esquisitices que ninguém se lembra de um discurso que Bolsonaro pronunciou em março de 2019, numa cerimônia militar no Rio de Janeiro. Disse que governaria ao lado das "pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia e a liberdade."

Nesse ponto, o orador sapecou: "Isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer" (ouça abaixo). Já se sabia que Bolsonaro idolatra o torturador Brilhante Ustra. Era de conhecimento geral também que ele acha que não houve golpe nem ditadura (algo de que discordam 78% dos brasileiros). De repente, descobriu-se que um presidente recém-eleito enxergava a democracia como uma concessão das Forças Armadas, um favor que os militares fazem ao país. Deu no que está dando.

'Democracia só existe se as Forças Armadas quiserem', diz Bolsonaro

UOL Notícias

Nos últimos dias, acossado pela prisão do amigo Fabrício Queiroz e pelo suspense policial que se formou ao redor do filho Flávio Bolsonaro, o presidente vem levando a língua na coleira. Mede as palavras. Mas seu comedimento é tão sincero quanto o medo. Assim que adquirir com cargos e verbas o escudo do centrão na Câmara e a blindagem do Zero Um no Senado, o capitão reabre o paiol.

Era previsível que Bolsonaro tentasse em algum momento se vincular a um rebotalho parlamentar que ajudasse a dissociar sua Presidência e sua família das rachadinhas e dos vínculos milicianos do passado. Mas esperava-se que o capitão estabelecesse alguma conexão com a agenda do seu governo.

Abalroado pela pandemia, Bolsonaro acorrentou-se a um negacionismo tolo. Sua administração é empurrada para o olho de um furacão econômico. Atribuir a crise ao presidente é tolice. O problema é que muitos são incapazes de enxergar competência em Bolsonaro para administrar a conjuntura. Ele, por sua vez, é incapaz de demonstrá-la.

Por sorte, o Datafolha potencializa a percepção de que a democracia brasileira já fincou raízes. Assim, o mesmo regime que tolera um presidente que faz aliança preferencial com o desastre permite que os eleitores exerçam a cada quatro anos, com irrestrita liberdade, o inalienável direito de fazer besteiras por conta própria. Dependendo do tamanho do estrago, o brasileiro talvez prefira fazer uma besteira diferente.

Josias de Souza