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Exausto da realidade, Bolsonaro cria país fictício

                                SERGIO LIMA/AFP
Imagem: SERGIO LIMA/AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

02/07/2020 05h52

Jair Bolsonaro divulgou nas redes sociais um vídeo criado para falar bem de si mesmo e do seu governo. Na peça, brasileiros de aparência ordinária conversam por telefone com um presidente extraordinário sobre um Brasil pujante, repleto de obras e realizações. Quem assistiu ficou tentado a pedir para viver no país extraordinário do vídeo, seja ele onde for.

Antes que uma multidão se aglomerasse defronte do Planalto para exigir a localização do Éden, descobriu-se que os diálogos eram falsos. As fotos dos supostos interlocutores do presidente estão disponíveis, a preços módicos, num conhecido banco de imagens.

Um dos retratos, vendido por R$ 45, exibe uma "mulher idosa feliz", que na conversa com Bolsonaro foi identificada como "dona Maria Eulina", da cidade cearense de Penaforte.

Outra fotografia, baixada gratuitamente do banco de imagens como "trabalhador" com uma "fábrica ao fundo", virou na conversa com o presidente "Francisco Valmar", do município potiguar de Parnamirim. A mesma imagem havia estrelado outra propaganda oficial.

Pilhado no contrapé, Bolsonaro mandou retirar o vídeo de suas redes sociais. A assessoria do Planalto divulgou nota para informar que o vídeo não passa de "uma peça piloto inacabada que não deverá ser veiculada, não possuindo, portanto, caráter oficial." Hã, hã.

A lambança foi encenada num dia em que Bolsonaro queixou-se do projeto de lei sobre fake news, que criminaliza notícias falsas. Já passou no Senado. Se vingar na Câmara, restará o veto, ameaçou o presidente.

"A fim de sanar qualquer tipo de distorção dos fatos, o vídeo foi retirado do ar", informou a assessoria do Planalto. Ah, bom! Numa hora dessas, gastar dinheiro com a construção de um Brasil hipotético presidido por um estadista presumido é uma variante do velho hábito de jogar o suor do contribuinte pela janela.

Josias de Souza