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Gestão Bolzuello completa dois meses na Saúde

Presidente Jair Bolsonaro e ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello - Adriano Machado
Presidente Jair Bolsonaro e ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello Imagem: Adriano Machado
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

15/07/2020 04h52

Híbrido resultante da cruza do negacionismo do capitão Jair Bolsonaro com o servilismo do general Eduardo Pazuello, o flagelo representado pela gestão Bolzuello no Ministério da Saúde faz aniversário de dois meses nesta quarta-feira (15). A pasta sofreu duas transformações. Virou uma trincheira militar. E tornou-se irrelevante na administração da maior crise sanitária da história.

Sob o ortopedista Henrique Mandetta, a Saúde era chefiada por um ministro de conteúdo oposicionista. Bolsonaro pregava uma coisa, Mandetta fazia o contrário. Na curta passagem do oncologista Nelson Teich, a Saúde virou uma pasta não essencial. O presidente tomava decisões sem consultar o ministro.

Com Bolzuello, atingiu-se o estágio da perfeição insignificante. Bolsonaro decide, o paraquedista Pazuello diz "amém", governadores e prefeitos ignoram as decisões. Formou-se entre médicos e cientistas uma densa unanimidade sobre a falta que o ministério faz: sem uma coordenação nacional, o custo humano e econômico da crise sanitária é maior.

Henrique Mandetta tomou o rumo da porta de saída numa entrevista ao programa Fantástico, em 12 de abril. Nela, o ortopedista tratou Bolsonaro à moda dos acupunturistas, na base da agulhada. Disse que, na guerra contra o coronavírus, o brasileiro "não sabe se escuta o ministro da Saúde ou o presidente."

Horas antes da entrevista de Mandetta, Bolsonaro dissera numa videoconferência com religiosos: "Parece que está começando a ir embora essa questão do vírus, mas está chegando e batendo forte a questão do desemprego." Os diagnósticos positivos para o coronavírus somavam, então, 22.169. Os mortos, 1.223.

Nelson Teich durou 28 dias no cargo. Percebeu que os parafusos de sua poltrona estavam frouxos na noite do dia 11 de maio. Num instante em que o ministro defendia o isolamento social, Bolsonaro editou sem consultá-lo um decreto autorizando a retomada de três atividades "essenciais": academias de ginástica, salões de beleza e barbearias.

Foi como se o capitão decretasse que a função de ministro da Saúde tornara-se não essencial. Diante das câmeras, durante uma entrevista coletiva, Teich se deu conta de que o pior tipo de solidão é a companhia de Bolsonaro no meio de uma pandemia. Indagado sobre o decreto, viveu momentos constrangedores. Não sabia do que se tratava. (reveja abaixo)

Teich deixou o governo em 15 de maio, quatro dias depois da humilhação. Os casos confirmados de coronavírus haviam chegado a 218.223. Os mortos eram contados em 14.817. O vírus que Bolsonaro imaginava, no mês anterior, que já começava a "ir embora" parecia decidido a desmentir o presidente.

Bolsonaro já havia demonstrado seu descaso pelo trabalho de Teich na semana anterior, quando marchara sobre o STF, para queixar-se de que o isolamento social estava levando CNPJs à UTI. Participaram da marcha empresários e uma penca de ministros. Até o filho Zero Um, Flávio Bolsonaro, fora levado a tiracolo pelo presidente. Não ocorrera a Bolsonaro a ideia de chamar o então ministro da Saúde.

O esquecimento de Bolsonaro era metódico. Ele excluía Teich de compromissos e decisões porque não desejava correr o risco de injetar racionalidade médica na sua conversa mole sobre "volta à normalidade".

Graças ao comportamento errático de Bolsonaro, o Brasil fez o avesso do que deveria no enfrentamento do vírus. Copiou mal o que é bom: o isolamento social. E inventou muito bem o que é ruim: a ausência de coordenação nacional na guerra sanitária. Há no país não uma, mas 27 pandemias. Cada estado lida com o vírus à sua maneira. Dentro dos estados há diferenças entre o que ocorre nas capitais e no interior.

Ironicamente, coube a Nelson Teich, o breve, fazer o diagnóstico mais preciso da "forma confusa" como o Brasil começa a flexibilizar o isolamento, como sempre apregoou Bolsonaro.

Na falta de uma coordenação central, disse o ex-ministro, "o modelo atual para liberar a economia pode acabar em inúmeras idas e vindas", num sistema em que "a mesma coisa é feita repetidas vezes na ilusão de que, em algum momento, vai funcionar. É quase a espera de um milagre."

Por enquanto, o milagre existe apenas na cabeça de Bolsonaro. "Preservamos vidas e empregos sem propagar o pânico", disse o presidente na semana passada. Para ele, "nenhum país do mundo fez como o Brasil". Hoje, decorridos dois meses da gestão Bolzuello na Saúde, o número de infectados passa de 1,9 milhão —entre eles o próprio Bolsonaro, submetido a um isolamento forçado no Alvorada. A pilha de cadáveres deve ultrapassar a marca de 75 mil nesta quarta-feira (15).

A mistura de Bolsonaro com Pazuello resultou em duas realizações: 1) A mudança do protocolo sobre a cloroquina, estendendo o uso do remédio à fase inicial da doença; e 2) A ocupação militar da pasta da Saúde, com a substituição de 28 técnicos por especialistas em fardas e continências.

A gestão Bolzuello havia programado um terceiro grande feito. Depois de esvaziar a pasta da Saúde, limitando-a à função de calculadora de cadáveres, o governo decidira desmoralizar os cálculos. Foi como se desejasse "provar" que a única coisa que as estatísticas oficiais provam é que as estatísticas não provam nada.

O governo começou a divulgar uma versão maquiada dos dados. Por ordem do Supremo Tribunal Federal, teve de recuar. Em nova evidência da irrelevância do Ministério da Saúde, um consórcio de veículos de comunicação passou a realizar diariamente uma escrituração independente da evolução da pandemia.

Na origem da crise sanitária, Bolsonaro acorrentou-se a um negacionismo tosco. Desde então, sempre que não sabe o que dizer sobre o coronavírus e as mortes que ele produz em escala industrial, o presidente recorre a duas ideias fixas: a volta à "normalidade" e os efeitos milagrosos da cloroquina.

O presidente se comporta como um sujeito que bate com a cabeça na parede, na expectativa de que a qualquer momento a parede vai se transformar numa porta. Por ora, Bolsonaro produziu apenas alucinações. O general Pazuello é parte do delírio do presidente.

Empurrado por Bolsonaro para dentro da engrenagem da Saúde como número 2 de Teich, o general virou um dos ministros interinos mais longevos da história da Esplanada. Inoculou nas Forças Armadas o vírus do constrangimento. A cúpula militar não canta "parabéns." Prefere entoar "está chegando a hora". Ou Pazuello vira ex-ministro rapidamente (Bolsonaro não tem pressa) ou será pressionado a passar do serviço militar ativo para a reserva (Pazuello não cogita apressar o passo). Nem os militares conseguem digerir a gestão Bolzuello.

Josias de Souza