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Josias de Souza

Surto:corrupção de ontem, de hoje e de amanhã

Canaltech
Imagem: Canaltech
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/07/2020 03h48

Desde a chegada da pandemia ao Brasil, a corrupção tem servido como assunto alternativo de conversa. Evita que o coronavírus monopolize as atenções. Quando se está numa reunião e alguém fala em corrupção, é inútil mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de escândalo. No momento, há nas manchetes escândalos do passado, do presente e do futuro.

Em São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin foi denunciado sob acusação de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e caixa dois. Coisas de 2010 e 2014. Faz companhia nas manchetes ao correligionário José Serra, investigado por um caixa dois de 2014 e por lavagem de dinheiro de 2006 e 2007.

A dupla tucana disputa com espaço no noticiário o petista Agnello Queiroz, investigado em Brasília por suspeita de recebimento de propina em 2014, quando governava o Distrito Federal. Em batida policial realizada nesta quinta-feira, a polícia encontrou o equivalente a R$ 250 mil em dinheiro vivo no endereço de uma das investigadas no inquérito. Havia cédulas de real e de dólar guardadas numa mala..

No Rio de Janeiro, foram presas cinco pessoas ligadas a uma organização social da área da saúde, Iabas, que frequenta o noticiário político-policial há uma década. Nesse período, desviou recursos na antiga gestão de Eduardo Paes e na atual administração de Marcelo Crivella. Como se fosse pouco, responde por malversação de verbas da pandemia em negócios firmados com o governo de Wilson Witzel, sob ameaça de impeachment.

Num instante em que os políticos se assombram com as escavações que o Ministério Público e a polícia fazem no passado, os cidadãos lamentam o presente e receiam o futuro. Não conseguem responder a um conjunto de perguntas singelas:

As denúncias vem para o bem ou para o mal? O acúmulo de casos de corrupção significa que o país afunda cada vez mais em seus insanáveis vícios? Ou, ao contrário, o fato de a roubalheira ser descoberta é sinal de evolução? Ora as pessoas acreditam numa coisa, ora noutra.

Quando a dúvida parecia ser o maior problema, Jair Bolsonaro oferece um motivo para a certeza de que as piores hipóteses sempre prevalecem. O presidente decidiu casar-se com o centrão, aglomerado partidário no qual não há inocentes, apenas investigados, denunciados, culpados e cúmplices.

Não há políticas públicas sobre a mesa. Alega-se que Bolsonaro precisa obter governabilidade. Esse vocábulo empolado, extraído da ciência política, ganhou no Brasil um sentido gangsterístico. Governabilidade virou um outro nome para safadeza e gandaia. Houve um tempo em que o futuro era feliz e radioso. Mas não é de hoje que, no Brasil, já não se faz futuro como antigamente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza