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Josias de Souza

Guedes revive filme que terminou mal para Moro

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

12/08/2020 20h06

Paulo Guedes tornou-se personagem de um filme parecido com aquele em que o prestígio de Sergio Moro morreu no final. No enredo estrelado por Moro, o desfecho foi marcado pela tentativa de Jair Bolsonaro de promover uma ocupação política da Polícia Federal. No roteiro protagonizado por Guedes, o presidente reduz o pé-direito do Posto Ipiranga ameaçando trocar o rigor fiscal imposto pelo teto de gastos públicos pela gastança de um populismo que mira a reeleição.

Os superpoderes de Moro no governo foram diminuindo na proporção direta do crescimento da deterioração ética da família Bolsonaro. A força que Guedes presumia ter é debilitada pelo desejo do presidente de fortalecer sua popularidade às custas do déficit público. Guedes já viu como esse tipo de encrenca termina. A franqueza com que o ministro expôs publicamente o seu próprio calcanhar de vidro foi uma tentativa vã de mudar o final do filme no replay.

Guedes traçou um risco no chão. Fez isso ao dizer que os conselheiros do presidente que o aconselham a pular cerca e a furar teto vão conduzi-lo a uma "zona sombria", a "uma zona de impeachment." Foi como se o ministro declarasse: "Se isso acontecer, eu chamo o caminhão de mudança, aderindo à debandada que levou à saída de mais dois membros da equipe econômica: Salim Mattar e Paulo Uebel."

Bolsonaro respondeu à franqueza de Guedes com a firmeza de um pedaço de gelatina. Defendeu o teto de gastos. Mas disse que, "num orçamento cada vez mais curto, é normal os ministros buscarem recursos para obras essenciais." Fez uma defesa protocolar da privatização. Realçou o "elevado nível de competência" dos assessores que saíram. Mas chamou de "normal" o êxodo que Guedes batizou de "debandada".

A cadeira de Guedes está tão firme quanto a poltrona de Moro. Cabe ao ministro decidir até que ponto deseja conviver com os parafusos frouxos. Está entendido que, para Bolsonaro, Guedes deixou de ser insubstituível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza