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Josias de Souza

Gilmar Mendes é nova aposta de Queiroz e Cia.

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

14/08/2020 01h25

A Justiça brasileira, como se sabe, é uma loteria togada. Nesse jogo, durou exatamente 35 dias o conforto obsequioso que o presidente do Superior Tribunal de Justiça, Otávio Noronha, proporcionou a Fabrício Queiroz e à mulher dele, Márcia Aguiar. De volta das férias e da convalescença de uma cirurgia, o ministro Félix Fischer, relator da rachadinha no STJ, revogou o mimo da prisão domiciliar concedido ao casal por Noronha, magistrado por quem Jair Bolsonaro nutre um declarado "amor à primeira vista."

Agora, a defesa de Queiroz aposta a sorte do cliente na benevolência de Gilmar Mendes, um adepto da política de celas abertas no Supremo Tribunal Federal. O recurso ao STF foi protocolado antes mesmo da decisão de Fischer, que já era esperada. Os advogados pedem a Gilmar que revogue a prisão.

O pedido deveria ser arquivado, pois a jurisprudência do Supremo veda a concessão de habeas corpus em casos com liminares negadas anteriormente por outro tribunal superior. Seria necessário aguardar por uma decisão final do STJ. Mas o caráter lotérico do Judiciário não costuma observar jurisprudências. É nisso que apostam Queiroz e seus amigos da família Bolsonaro.

A preocupação do clã Bolsonaro é maior com Márcia do que com Queiroz. Ao receber o passaporte que lhe permitiu migrar da condição de fugitiva para a de cuidadora do marido, Márcia não foi devidamente esclarecida sobre o risco de se transformar numa espécie de Joana D'Arc.

Sabia-se desde o início que, terminada as férias do Judiciário, a liminar redentora que Noronha assinou como chefe do plantão escorregaria para a mesa de Fischer, um magistrado de mostruário. Sabia-se também que era grande, muito grande, enorme o risco de Queiroz ser enviado de volta para a cela de Bangu 8. E Márcia, agora monitorada pela polícia, já não tem tanta facilidade para fugir, como fez em 18 de junho, quando a prisão do casal foi decretada.

Em privado, Queiroz dizia que aguentaria quase tudo, exceto submeter a mulher e a filha Nathalia a constrangimentos. No clã Bolsonaro, Márcia é vista como pessoa de "baixa resistência", suscetível à tentação de celebrar com o Ministério Público um acordo de delação premiada. Ao enviar Joana D'Arc da cana domiciliar para a fogueira, Fischer converteu Gilmar numa espécie de magistrado-procissão, condenando Queiroz e os Bolsonaro a acompanhá-lo com suas preces.

- Atualização feita às 22h31 desta sexta-feira (14): Gilmar Mendes desfez a decisão de Felix Fischer. Determinou que o casal Queiroz e Márcia permaneça em prisão domiciliar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza