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Oligarcas dos partidos desafiam paciência alheia

Homem segurando dinheiro
Imagem: Homem segurando dinheiro
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/09/2020 06h00

Descontando-se o caixa dois, a campanha eleitoral de 2020 custará ao Tesouro Nacional R$ 2 bilhões. Em tempos normais, o avanço sobre o bolso do contribuinte seria apenas vergonhoso. Em meio a uma pandemia que encurtou o calendário eleitoral e transferiu a aglomeração dos comícios para as redes sociais, a vergonha transforma-se num desafio à paciência alheia.

Além de manter intacto o orçamento definido quando ainda não havia coronavírus, os partidos administram a verba de costas para a moralidade. Enviaram ao Tribunal Superior Eleitoral as atas das reuniões em que definiram os critérios para o rateio da verba entre os candidatos a prefeito e vereador. O repórter Ranier Bragon farejou indícios de fraude.

As atas de pelo menos quatro legendas trazem trechos idênticos. É como se a reunião do PSL fosse um replay do encontro do PL, ocorrido um mês antes. A mesma coincidência transformou a ata do PMB num relato quase idêntico à descrição do encontro do Solidariedade. Ou os textos foram psicografados por alguma entidade suprapartidária vinda do além ou a Justiça Eleitoral está fazendo papel de boba.

Mal comparando, é como se os oligarcas que controlam a caixa registradora dos partidos retornassem à infância. Definem o rateio do fundão como se brincassem de soprar balões para descobrir qual é o ponto exato de ruptura que antecede a explosão.

Quem já encheu balões na infância sabe que o ponto exato de ruptura só costuma ser descoberto quando não adianta mais nada. Num cenário em que os mais de 120 mil mortos do coronavírus se misturam a uma conjuntura marcada pela recessão e o desemprego, os donos dos partidos buscam obstinadamente o ponto de explosão. Ainda não notaram que o saco nacional já está cheio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL