PUBLICIDADE
Topo

Sob Bolsonaro, não se pode ser patriota em paz

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

08/09/2020 19h36

Jair Bolsonaro atravessou o 7 de Setembro, Dia da Independência, cheio de tambores e cornetas, como se fosse o próprio hino nacional. Leu em rede nacional mensagem que vendeu um nacionalismo idealizado. Embrulhou o patriotismo na faixa presidencial. Bolsonaro incorpora o comportamento de generais que presidiram o país na época da ditadura. Quem está com o presidente e o governo é patriota. Quem está do outro lado não ama o seu país.

Na visão de Bolsonaro estar do lado certo da história inclui a aceitação da tese segundo a qual a defesa da democracia não é incompatível com a exaltação do golpe militar de 1964. Problemas da democracia devem ser resolvidos pela democracia, não por golpes. Se o pronunciamento que Bolsonaro levou ao ar em rede nacional na noite do Dia da Pátria serviu para alguma coisa foi para reforçar a ideia de que, no seu governo, o brasileiro já não pode nem ser patriota em paz. O patriota não bolsonarista tem sempre a impressão de que está venerando a algo mais além da pátria. Ou servindo aos interesses de alguém mais.

Mal comparando, aconteceu algo semelhante na Copa do Mundo de 1970. O Brasil atravessava o auge de arbitrariedade e de violência de uma ditadura longeva. E a seleção brasileira de futebol brilhava nos gramados do México com o timaço de Pelé e Tostão, Gérson e Rivelino. Muita gente torceu contra a seleção porque sabia que o título levaria o general de plantão no Planalto a se enrolar na bandeira e ensaiar embaixadinhas ao lado dos jogadores para grudar o sucesso do gramado na imagem do governo, embaçando o que ocorria nos porões.

Há um outro problema. O patriotismo de Bolsonaro se abriga numa realidade paralela. O atual presidente tinha 32 anos quando sua carreira militar desmoronou. Ele deixou o Exército pela porta dos fundos, empurrado pelo Superior Tribunal Militar. Foi enviado para a reserva graças a um episódio que envolvia a autoria de um croqui que continua o plano de um atentado a bomba contra uma adutora no Rio de Janeiro. Eleito presidente, enrolou-se, logo no início do mandato, com as traficâncias do seu grande amigo Fabrício Queiroz. Nada disso orna com a pose de patriota limpinho que Bolsonaro encena diante das câmeras. Se deseja estimular o patriotismo, Bolsonaro deveria melhorar a pátria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL