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Suspensão de vacina deixa mal capitão e general

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/09/2020 06h43

A notícia de que a farmacêutica AstraZeneca decidiu suspender os testes da vacina contra Covid-19 leva o brasileiro a dirigir aos seus botões uma pergunta incômoda: já imaginaram que país magnífico teríamos se, de repente, por um milagre, baixasse no Planalto e na Esplanada dos Ministérios uma epidemia de ridículo?

A novidade deixou mal Jair Bolsonaro, o capitão que ocupa o trono de presidente; e Eduardo Pazuello, o general que caiu de paraquedas na poltrona de ministro da Saúde.

Bolsonaro repetiu num encontro com médicos "cloroquineiros" que "não se pode injetar qualquer coisa nas pessoas, muito menos obrigar" a tomar vacina. Os testes foram suspensos justamente porque um dos voluntários que serviam de cobaia no Reino Unido apresentou reação adversa.

Deseja-se investigar o que ocorreu antes de retomar os testes, feitos em parceria com a Universidade de Oxford. O zelo e a responsabilidade visam justamente prover segurança e confiabilidade quanto à eficácia da vacina. O esforço transforma o lero-lero presidencial sobre os riscos de "injetar qualquer coisa nas pessoas" numa versão sanitária da velha e boa conversa fiada.

Horas antes, Bolsonaro levara para uma reunião ministerial a youtuber mirim Esther, 10 anos. Ela crivou os ministros de perguntas, algumas cochichadas pelo próprio Bolsonaro. Ao ministro da Saúde, a menina perguntou se haverá vacina.

E o general: "Esse é o plano. A gente tá fazendo os contratos com quem está fazendo a vacina. E a previsão é que essa vacina chegue para nós a partir de janeiro. Em janeiro do ano que vem, a gente começa a vacinar todo mundo."

A vacina a que o ministro se referiu é justamente a que teve os estudos suspensos. No Brasil, os testes estão sob a responsabilidade da Fiocruz, vinculada à pasta da Saúde. Antes da suspensão, a previsão de deflagrar a vacinação em janeiro era apenas um despautério. Depois, virou piada.

Em nota oficial, a AstraZeneca esclareceu: "Como parte de um teste controlado, randomizado global da vacina de coronavírus de Oxford, nosso procedimento padrão de revisão desencadeou uma pausa na vacinação para permitir a revisão de dados de segurança".

Acrescentou: "Esta é uma ação de rotina que precisa ocorrer sempre que há problema de saúde inexplicado em potencial em um dos testes, enquanto é investigado, garantindo a manutenção da integridade dos testes."

Bolsonaro deveria aproveitar a suspensão para refletir sobre a conveniência de interromper o hábito de falar dez vezes antes de pensar. E Pazuello faria um bem a si mesmo se substituísse o otimismo tosco pela elaboração de um plano de distribuição da vacina. Coisa com começo (compra de insumos como seringas), meio (campanha de esclarecimento e logística de distribuição) e fim (aplicação de mais de 100 milhões de doses).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL