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Bolsonaro trata pandemia com precipitação, egoísmo e insensibilidade

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

11/09/2020 16h34

Os encontros de Bolsonaro com o microfone são sempre perigosas aventuras. Discursando na Bahia, o presidente disse basicamente três coisas: 1) "Estamos praticamente vencendo a pandemia." 2) "O governo fez tudo para que os efeitos negativos da pandemia fossem minimizados"; 3) o Brasil "foi um dos países que menos sofreram com a pandemia", em função das "medidas tomadas pelo governo federal". Numa fala curta, Bolsonaro foi precipitado, egoísta e insensível.

O presidente se precipitou ao dizer que o país está vencendo a pandemia. Numa crise com quase 130 mil mortos sobram evidências de que o Brasil perdeu a guerra sanitária. Considerando-se a lentidão da queda na curva de contágio, o processo de redução de danos está longe de ser concluído.

Bolsonaro transbordou egoísmo ao afirmar que o governo fez tudo para atenuar o que chamou de "efeitos negativos" da pandemia. Ele se referia ao aspecto financeiro. De fato, a emergência de saúde forçou o Tesouro Nacional a substituir momentaneamente a política de cintos apertados para a estratégia dos cofres abertos. Mas essa história seria outra se o Congresso não tivesse empurrado o governo.

Foi do Legislativo a iniciativa de propor o Orçamento de Guerra, que circunscreve a exceção fiscal aos limites da ano de 2020. Se dependesse do governo, o auxílio emergencial teria sido de R$ 200.

O presidente não precisa se excluir do enredo que ele considera bem sucedido. Mas deixaria seus apoiadores no Legislativo menos irritados se fosse mais generoso no compartilhamento dos resultados. Por último, Bolsonaro soou insensível ao afirmar que o Brasil sofreu pouco. As estatísticas e os familiares dos brasileiros mortos e dos que ainda morrerão desautorizam essa afirmação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL