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Por voto evangélico, Bolsonaro cria veto com fé

 Sérgio Lima - 5.jan.20/AFP
Imagem: Sérgio Lima - 5.jan.20/AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

14/09/2020 03h35

Espremido entre o fiscalismo de Paulo Guedes e o oportunismo da bancada da Bíblia, Jair Bolsonaro refugiou-se no equilibrismo. Criou uma nova modalidade de veto: o veto com fé. Barrou o perdão das dívidas tributárias das igrejas, como queria o ministro da Economia. Mas expressou sua fé na disposição do Congresso de remover a montanha que oprime a cristandade da sonegação.

De olho no voto evangélico, Bolsonaro tratou seu próprio veto como um pecado. Estimulou os congressistas a castigá-lo, derrubando o veto. Esclareceu que, se pudesse, infligiria a penitência a si mesmo: "Confesso. Caso fosse deputado ou senador, por ocasião da análise do veto, que deve ocorrer até outubro, votaria pela derrubada do mesmo."

O passivo dos irmãos nasceu de autuações da Receita Federal. Embora disponham de imunidade tributária, certas igrejas realizaram uma distribuição incerta de resultados financeiros entre pastores e líderes religiosos. Algo muito parecido com a distribuição de lucros de uma empresa. O fisco decidiu cobrar a Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido (CSLL) e a contribuição previdenciária. Coisa de R$ 1 bilhão.

O projeto que anistiou o débito das igrejas foi aprovado no Congresso sob aplausos dos líderes do governo, que foram ao microfone para recomendar voto a favor. Bolsonaro sinalizou que avalizaria o perdão. Vetou sob a alegação de que havia um "obstáculo jurídico incontornável". Anotou nas redes sociais que o veto evita "um quase certo processo de impeachment", por irresponsabilidade fiscal.

Bolsonaro não se deu conta. Mas seu estímulo à derrubada do veto não prestigia os evangélicos. Homenageia apenas a esperteza de líderes religiosos. Todo brasileiro de bem deve orar para que o veto seja mantido. Sob pena de os brasileiros serem separados em dois grupos: os idiotas e os espertos.

Os idiotas —crentes e ateus, pessoas físicas e empresas— pagam em dia os seus tributos. Os espertos levam o fisco no beiço. Quando autuados, cavam anistias no Legislativo.

Para a bancada da Bíblia, o apelo de Bolsonaro em favor da derrubada do próprio veto talvez seja apenas mais uma evidência de que Deus existe. Paulo Guedes e sua equipe também acreditam que Ele existe. Mas receiam que o Todo-Poderoso já não dá expediente full-time.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL