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Josias de Souza

Bolsonaro fez do auxílio emergencial armadilha

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/09/2020 19h37

Jair Bolsonaro criou uma armadilha para si mesmo. Fez isso ao propagandear a criação de um programa de renda mínima antes de providenciar a fonte de financiamento. Mal comparando, foi como se o presidente iniciasse a construção de um novo Bolsa Família pelo telhado, fantasiando que seria possível produzir a mágica de manter a cobertura flutuando no ar sem paredes e alicerces para sustentá-la. Chega um momento em que a verdade orçamentária se impõe. Nessa hora, a conveniência política é confrontada com a lógica fiscal.

A gestão Bolsonaro vive o difícil momento de transição entre a temporada de gastos frouxos da emergência sanitária e a retomada da política de cintos apertados. Nem as almas mais ingênuas imaginaram que um presidente que viu a popularidade subir como efeito do socorro aos brasileiros pobres chegaria até o Natal sem articular a criação de um substituto qualquer para o auxílio emergencial. Um dia depois da decretação da morte do Renda Brasil, o relator do Orçamento da União para 2021, senador Márcio Bittar, saiu de um almoço com Bolsonaro informando que o presidente o autorizou a criar um novo Bolsa Família.

Como o nome indica, o auxílio emergencial decorre de uma emergência. O Brasil teve de fazer gastos extraordinários para acudir pessoas cuja vulnerabilidade social foi acentuada pela pandemia. A despesa extra foi financiada pelo déficit público. Um ajuste de contas, além de desejável, é inevitável. Eternizar a emergência seria como reconhecer que o maior déficit não está nas arcas do Tesouro, mas entre as orelhas dos governantes.

O governo começou a desmamar os brasileiros que recebem o vale corona quando reduziu o valor das últimas parcelas de R$ 600 para R$ 300. Acentuou o movimento ao impor regras mais restritivas, que devem excluir até 6 milhões de pessoas do rol de beneficiários. Resta saber agora se será possível incluir Bolsonaro no desmame.

A emergência social brasileira é grande. Uma política social bem estruturada seria bem-vinda. Mas até aqui o que se viu foi um presidente tentando desenvolver em cima do joelho uma gambiarra eleitoral. Nesse tipo de construção não há espaço para arquitetos desmazelados, do tipo que, diante de problemas no projeto de uma casa, diz: "Relaxa, depois a gente coloca umas plantas para disfarçar." Em matéria fiscal, não há samambaia que resolva.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza