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No setor ambiental, governo se defende atacando

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

21/09/2020 22h14

Num instante em que ardem a Amazônia e o Pantanal, Jair Bolsonaro discursará na abertura da Assembleia Geral da ONU. Adotará como linha de defesa o ataque. O presidente avalia que não deve nada a ninguém, muito menos explicações. Para ele, o mundo deveria enxergar o Brasil como um exemplo na área ambiental. O problema é que avolumam-se indicações de que o mundo discorda desse ponto de vista. Às vésperas do discurso de Bolsonaro o governo foi importunado com um pedido de abertura de investigação ambiental feito no Conselho de Direitos Humanos da ONU. É improvável que a investigação prospere. Mas o prejuízo político é inevitável.

A embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo, preocupou-se mais em desqualificar o pedido de investigação do que em qualificar a política ambiental do governo. Classificou a iniciativa como uma ação política travestida de requisição técnica. Argumento semelhante vem sendo utilizado pelas autoridades brasileiras para rebater todos os críticos. O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, chegou a afirmar que há uma perseguição política para derrubar Bolsonaro —um argumento que não serve senão para expor a falta de argumento.

Desde que Bolsonaro falou pela primeira vez na abertura da Assembleia Geral da ONU, há um ano, o rol de críticos ambientais só aumentou. Já endereçaram cartas ao governo representantes dos maiores fundos de investimento do mundo, embaixadores de oito países da União europeia, ex-ministros do Meio Ambiente e 230 representantes de entidades, empresas e do agronegócio brasileiro.

Se Bolsonaro quiser continuar se autovangloriando, talvez consiga confundir parte da opinião pública. Mas não conseguirá mudar três fatos objetivos: 1) seu governo lida de forma inadequada com fenômenos tradicionais como as queimadas e o desmatamento. 2) Isso provoca danos ao ambiente e à imagem do país. 3) Esses danos resultam em prejuízos para empresas brasileiras no exterior e devem provocar perdas de investimentos num instante em que o Brasil tenta sair do abismo econômico. Um pouco de autocrítica não faria mal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL