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Bolsonaro reproduziu na ONU o enredo de 2022

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

22/09/2020 19h27

No primeiro parágrafo do pronunciamento que leu na tribuna virtual da Assembleia Geral da ONU, Jair Bolsonaro disse estar honrado por abrir o encontro "num momento em que o mundo necessita da verdade para superar seus desafios." Pronunciou na sequência um amontado de meias verdades, privilegiando a parte que é mentirosa. O presidente reproduziu na vitrine internacional o enredo que ensaia internamente para usar na campanha de 2022. Nesse roteiro, a culpa pelas crises é sempre do outro. Bolsonaro frequenta os problemas na posição invariável de solução. Quando a coisa não funciona a contento é porque os outros atrapalham.

Na pandemia, acusou Bolsonaro, a imprensa politizou o vírus e disseminou o pânico do fique em casa. O Supremo amarrou as mãos do presidente. E os governadores, esses malvados, promoveram o isolamento e restringiram liberdades. Todo mundo culpado, exceto Bolsonaro, que avisou sobre o desemprego que estava por vir e providenciou, "de forma arrojada", as "medidas econômicas que evitaram o mal maior". Bolsonaro se jactou do auxilio emergencial. Achou desnecessário dar algum crédito ao Congresso, que elevou o valor mixuruca que seu governo oferecia para uma cifra mais vistosa, que, além de alimentar os humildes, vitaminou a popularidade do benfeitor do Planalto.

No Meio Ambiente, o que há não é uma elevação das queimadas e do desmatamento, mas uma "brutal campanha de desinformação". Coisa apoiada por "instituições internacionais" que desejam prejudicar o agronegócio brasileiro e "associações brasileiras" que tramam contra o país. Tudo culpa de interesses internacionais "escusos" e de "aproveitadoras e impatrióticas" entidades nacionais. Por sorte, há no Planalto um estadista disposto a manter o que Bolsonaro chamou de "política de tolerância zero com o crime ambiental."

Faltou ao pronunciamento de Bolsonaro um pé na realidade. Mas um mínimo de respeito aos fatos revelaria ao presidente que ele também está sujeito à condição humana. E isso o obrigaria a enxergar no reflexo do espelho pelo menos um corresponsável pelo mau gerenciamento das crises sanitária e ambiental. Há um ano, quando falou na ONU sobre "tolerância zero contra o crime", o presidente esclareceu que se referia aos crimes ambientais e à corrupção. Elogiou na época o "patriotismo", a "perseverança" e a "coragem" de Sergio Moro, a quem chamou de "símbolo do meu país." Ou seja: tudo muda no Brasil, exceto a inocência de Bolsonaro. Não há imagem rachadinha que resista a uma boa mistificação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL