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Nova política envelheceu em menos de dois anos

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/09/2020 04h05

O avanço do pedido de impeachment do governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, consolida a reversão de um fenômeno. Aquilo que se convencionou chamar na campanha de 2018 de nova política ganhou uma aparência de pão dormido.

Três governadores eleitos à sombra de Jair Bolsonaro como grandes novidades arrastam-se pela conjuntura em frangalhos. O próprio Bolsonaro, chefe de uma organização familiar, blinda-se encostando seu governo nos prontuários do centrão. No Congresso, velhos modos prevalecem sobre a hipotética renovação.

Além de Witzel (PSC), engolfado por denúncias de desvios de verbas da pandemia, encontram-se na berlinda os governadores de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL), e do Amazonas, Wilson Lima (PSL). Ambos também surfaram a onda bolsonarista.

O nó do impeachment aperta o pescoço de Carlos Moisés com intensidade comparável à da forca de Witzel. O processo foi aberto pela Assembleia Legislativa catarinense há uma semana com um placar elástico: 33 votos a 6.

O pretexto para encrencar Moisés foi a concessão de reajuste salarial a procuradores do Estado sem aval do Legislativo. Mas há na fila um segundo pedido de impeachment. Envolve denúncias de irregularidades na compra de respiradores.

Investigado sob suspeita de superfaturamento de contratos relacionados à guerra contra o coronavírus, Wilson Lima toureou um pedido de impeachment. Foi rejeitado na Assembleia Legislativa amazonense em 20 de agosto. Mas o futuro do governador continua escorado em investigações que correm no âmbito de uma operação de nome sugestivo: Sangria.

Em movimentos paradoxais, Bolsonaro toma distância dos ex-aliados encrencados nos estados ao mesmo tempo em que consolida em Brasília sua parceria com a banda investigada do Congresso.

Recém-acomodado no posto de líder de Bolsonaro na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR) tornou-se alvo de uma investigação do Ministério Público do Paraná. É acusado de receber mais de R$ 5 milhões em propinas entre 2013 e 2014, quando era secretário de Indústria e Comércio do Paraná.

O Planalto fingiu-se de morto. E ninguém em Brasília fez a concessão de um ponto de exclamação, pois o convívio de Bolsonaro com a suspeição virou parte da paisagem.

Bem antes de se achegar a Ricardo Barros, um expoente do centrão, o presidente nomeara para o posto de líder do governo no Senado Fernando Bezerra (MDB-PE). Em pleno exercício da liderança, Bezerra recebeu a visita dos rapazes da Polícia Federal. Freguês da Lava Jato, o senador é acusado de desviar R$ 5,4 milhões em verbas públicas.

Hostilizados por Bolsonaro durante a campanha de 2018 e ao longo do primeiro ano do governo, os partidos do centrão e assemelhados estão cada vez mais integrados. Na prática, o presidente abre espaço no governo para quem nunca saiu dele.

Ricardo Barros, ex-companheiro de partido de Bolsonaro no PP, foi líder dos governos FHC, Lula e Dilma. Serviu como ministro de Michel Temer. Fernando Bezerra, ex-filiado do PSB, é um antigo apoiador de Lula. Foi ministro de Dilma Rousseff.

Estreitam-se as inimizades por necessidade. Pendurados de ponta-cabeça nas manchetes, os Bolsonaro constataram que o distanciamento social que mantinham da banda suspeita do Congresso não faz mais sentido. Atingiu-se na política aquilo que, na língua da pandemia, é chamado de contaminação de rebanho.

Bolsonaro e os seus filhos com mandato —Flávio, Eduardo e Carlos— viraram arroz de festa num noticiário em que as suspeitas de rachadinha nos gabinetes da família se misturam a transações eleitorais e imobiliárias fechadas em dinheiro vivo. A conjuntura promove uma metamorfose em Bolsonaro. Era pedra, virou vidraça.

Há outras metamorfoses em andamento. Por exemplo: eleito presidente do Senado como reação ao domínio do oligarca Renan Calheiros (MDB-AL), o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) já é chamado por alguns dos seus colegas de neo-coronel. Embora a constituição proíba, ele articula sua reeleição para o comando do Senado. Rodrigo Maia (DEM-RJ) simula desinteresse. Mas evolui no vácuo.

Desafeto de Renan, o senador Lasier Martins (Podemos-RS) cobra de Alcolumbre o cumprimento da promessa de acabar com o voto secreto na eleição para a presidência do Senado.

Lasier reproduz uma frase extraída do discurso de posse de Alcolumbre, em 2 de fevereiro de 2019: "No que depender da minha condução, esta será a derradeira sessão do segredismo, do conforto enganoso do voto secreto".

A nova política tornou-se uma fabulação esquisita. Tem o faro de Bolsonaro, adquirido em três décadas de vida parlamentar. Tem as manhas de gente como Ricardo Barros e Fernando Bezerra, no poder desde a chegada das caravelas. Tem o amadorismo à moda Witzel. Tem o oportunismo de Alcolumbre. Tem quase tudo, exceto compostura.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL