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Principal mal da política é odor, não cor ou sexo

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

28/09/2020 04h46

Disputam as poltronas de prefeito e de vereador neste ano de 2020 pelo menos 526 mil candidatos. A Justiça Eleitoral celebra duas novidades: um recorde no número de candidaturas femininas (34%) e o fato de a maioria dos postulantes (51%) ter se autodeclarado preto ou pardo. Pode-se soltar fogos pela consolidação das cotas de raça e de gênero. Mas quem não quiser perder o foco deve levar em conta o seguinte: o principal problema da política brasileira é o cheiro, não a cor ou o sexo.

Se a sensibilidade auditiva fosse transportada para o nariz, o eleitor sentiria um mau cheiro insuportável sempre que tivesse que confrontar as promessas dos candidatos com as desculpas que os eleitos oferecem quando pilhados em flagrantes de incoerência, de ineficiência ou de corrupção. O estelionato político, a ineficácia administrativa e a safadeza não costumam fazer distinção entre negros e brancos, homens e mulheres.

Na campanha federal de 2018, o eleitor chutou o balde. As urnas rechaçaram parte do elenco que respondia à fome do eleitorado por limpeza com malabarismo verbal e ilusionismo ideológico. No varejo, houve o voto antipetista. No atacado, o voto hostil aos políticos. Decorridos menos de dois anos, o eleitor constata que elegeu muito pão dormido disfarçado de nova política.

Nos estados, governadores novatos roubam ou deixam roubar até verbas da saúde. Em Brasília, o presidente que se vendia como um lavajatista antissistema revela-se um chefe de organização familiar que transforma em heróis da resistência prontuários do sistêmico centrão. A bancada do rebotalho prevalece com folga no Legislativo sobre a banda da hipotética renovação.

De duas uma: ou o eleitor entrega os pontos ou transforma 2020 em antessala de 2022, renovando a disposição para varrer a mediocridade e a falta de caráter. No Brasil, as eleições são como loterias sem prêmio. Voto vai, voto vem, o eleitor é compelido a renovar a ilusão de que é possível começar tudo de novo, do zero, para ver se finalmente dá certo.

Num ambiente assim, tão malcheiroso, até a fixação de cotas é um convite para o malfeito. Proliferam as candidatas laranjas, lançadas com o propósito de desviar verbas públicas do fundo eleitoral. O mesmo Judiciário que demora a punir a perversão das candidaturas femininas de fancaria substitui o Legislativo na criação da cota racial —um convite a novas fraudes. O fedor, que já é lancinante, tende a aumentar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL